A Leitura como sendo uma Virtude Aristotélica: Reflexão filosófica sobre a Cultura Lombadeira e a Essência da Leitura
No texto que publiquei recentemente aqui na Arcádia Aeterna, sobre um fato ocorrido há pouco tempo em nossa sociedade. Por mais que considere tal situação demasiadamente esdrúxula, isso, de certa forma, atrai muito a nossa atenção, pois envolve o universo literário.
Em meu texto abordei o caso da "famosa" Rafa Kalimann que comprou livros só para decorar a estante não é um simples caso isolado. Acredito que isso reflete um problema maior na nossa cultura, onde a aparência e a imagem (eikón) são mais valorizadas do que o conteúdo e a substância (ousía). Em outras palavras, os livros estão sendo usados mais como objetos de decoração do que como fonte de conhecimento e reflexão.
Eu também destaca que existe uma "cultura lombadeira" e que isto não é apenas sobre gostar de edições bonitas, mas sim sobre uma sociedade que valoriza a superfície e a aparência em detrimento da profundidade e do significado. Isso faz com que a literatura e o saber sejam reduzidos a meros adornos, em vez de serem vistos como ferramentas para o crescimento intelectual e pessoal.
Devemos agora acrescentar à minha crítica uma reflexão filosófica mais profunda! Evocarei aqui para sustentar as minhas ideias o grande filósofo grego Aristóteles e sua concepção de virtude.
Segundo Aristóteles, a virtude (areté) é uma característica moral que permite às pessoas alcançar a excelência e viver uma vida feliz e plena. Para ele, as virtudes são hábitos ou disposições morais que são desenvolvidos através da prática e da repetição de ações boas. Deste modo, destacamos três pontos importantes na ideia de virtude desse filósofo:
I) A virtude, segundo Aristóteles, é um meio-termo (mesotes) entre dois extremos: um excesso e uma falta. Por exemplo, a coragem é o meio-termo entre a covardia (falta de coragem) e a temeridade (excesso de coragem).
II) A virtude é considerada uma característica fundamental para alcançar a eudaimonia (felicidade ou bem-estar) e viver uma vida plena e satisfatória.
III) Virtudes morais (ethikai aretai) são relacionadas ao caráter e ao comportamento moral, como a coragem (andreia), a temperança (sophrosyne) e a justiça (dikaiosyne).
A ideia de Aristóteles está relacionada não a um inatismo, mas ligado diretamente a prática (práxis), ou seja, o sujeito deve alcançar a virtude por suas ações, porque ele não nasce virtuoso, ele torna-se. Agora podemos transportar essa ideia para a nossa questão atual sobre os leitores e os consumidores de livros.
A existência do leitor contemporâneo, segundo a concepção aristotélica de virtude, parece estar presa entre dois extremos: a ostentação silenciosa e a devoração apressada. Por um lado, o livro é reduzido a um objeto de decoração, um símbolo de sofisticação que não é lido, apenas exibido. Por outro, o livro é consumido rapidamente, sem pausa para reflexão ou absorção, apenas para satisfazer uma meta quantitativa.
Nessa dicotomia, o livro perde sua essência: ser um portal para o conhecimento, a reflexão, o lazer e a transformação. Em vez disso, torna-se um mero acessório ou um desafio a ser superado. O leitor, nesse processo vicioso, perde a oportunidade de se conectar verdadeiramente com o texto, de se deixar afetar pelas ideias e emoções que ele transmite.
Essa situação nos leva a questionar o que significa realmente "ler" e "ser um leitor". Será que a leitura é apenas uma questão de quantidade ou de aparência? Ou será que ela envolve uma relação mais profunda e significativa com o texto e consigo mesmo?
A resposta pode estar em encontrar um equilíbrio entre a apreciação estética do livro e a profundidade intelectual da leitura. Talvez seja necessário reaprender a ler, a se conectar com o texto de forma mais autêntica e significativa. Afinal, a leitura não é apenas uma atividade intelectual, mas também uma experiência existencial que pode nos transformar e nos fazer crescer.
Por Janilson Fialho
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