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Mostrando postagens de julho, 2025

A Trilogia da Linguagem em Crisipo: Significante, Significado e Coisa Significada

A reflexão sobre os elementos constitutivos da linguagem é tema recorrente na história da filosofia. Embora frequentemente associemos a distinção entre significante e significado ao linguista Ferdinand de Saussure, é no pensamento estoico, especialmente em Crisipo (280–207 a.C.), que encontramos uma formulação anterior e surpreendentemente complexa sobre o funcionamento dos signos linguísticos. O compositor e teórico brasileiro Flo Menezes destaca essa anterioridade ao afirmar que Crisipo pode ser considerado o verdadeiro pai da linguística. Este ensaio busca explorar a tríade proposta por Crisipo — significante, significado e coisa significada — e sua inserção na ontologia estoica, marcada pela oposição entre o corpóreo e o incorpóreo. Segundo a  tinologia estoica , ramo da filosofia estóica voltado ao estudo da linguagem, Crisipo defende que toda expressão verbal envolve três dimensões fundamentais. A primeira é o  significante , entendido como o som ou expressão vocal — um ...

Sobre as tarifas de Trump, o seu recuo e a dialética hegeliana do "senhor e servo"

Na dialética hegeliana do "senhor e do servo", vemos que o senhor exerce domínio sobre o servo por meio do medo e da ideologia. Contudo, ao observarmos mais atentamente essa relação, percebemos que, na prática, o senhor é profundamente dependente do servo. É o servo quem realiza o trabalho, quem produz, quem sustenta materialmente a relação. O verdadeiro temor do senhor é que o servo venha a desenvolver sua autoconsciência, compreenda sua própria força e, assim, afirme-se como soberano, rompendo com a lógica da dominação. O maldito Trump age como se fosse senhor do mundo, acreditando que pode impor tarifas e sanções econômicas a seu bel-prazer. Seu poder, no entanto, só se efetiva onde não há soberania nacional, onde os povos aceitam passivamente sua influência e se submetem às suas exigências. O Brasil, assim como muitos outros países, tem mostrado que não é um mero servo disposto a se curvar às imposições dos Estados Unidos. Ao contrário, são nações soberanas, com interess...

Um Ensaio sobre a questão da história em A Cidade de Deus, de Santo Agostinho

O presente texto é um breve ensaio acerca de A Cidade de Deus , de Santo Agostinho. Apresentaremos os argumentos do filósofo sobre a questão da história, mais precisamente sua concepção do tempo como linear e orientado pela Providência Divina. Além disso, mostraremos como essa concepção influenciou sua visão ética. Também analisaremos a diferença entre a “Cidade dos Homens” e a “Cidade de Deus”. No entanto, antes de tratarmos diretamente dessas questões, é importante compreender o contexto histórico que levou Agostinho a escrever sua obra. A Cidade de Deus foi escrita entre os anos de 413 e 426 d.C., em um período de profunda crise no Império Romano do Ocidente. A obra surge como resposta ao saque de Roma pelos visigodos em 410 d.C., evento que teve enorme impacto simbólico, uma vez que Roma, até então, era considerada o centro do mundo civilizado. Após esse acontecimento, muitos pagãos passaram a culpar os cristãos, argumentando que o abandono dos antigos deuses teria provocado a ira...

Colóquio: O Que É Música? Um Diálogo sobre John Cage, Silêncio e Provocação

Recentemente, entrei numa discussão provocada pela obra  As Slow As Possible , de John Cage — uma composição cuja execução está prevista para durar 639 anos. Como era de se esperar, a proposta gerou reações intensas, sobretudo entre músicos e amantes da tradição. Vi diversos comentários raivosos, indignados, afirmando que aquilo “não era música”. O curioso é que muitos dos que mais criticam a obra se recusam a estudar a fundo tanto a peça quanto o próprio compositor. A reação deles parte não de conhecimento, mas de uma espécie de pânico estético diante do que desafia seus critérios estabelecidos. Um desses críticos, bastante indignado, decidiu travar um debate comigo. O diálogo foi mais ou menos assim — e serve como retrato de um embate mais profundo sobre o que chamamos de arte. Ele: O compositor que não se importa com o ouvinte é um hipócrita. Ninguém escreve música pra ninguém ouvir. Mesmo que seja pra uma pessoa só — a mãe, o pai, um amigo ou namorado — ainda assim é para algué...

O Método Freiriano: Eficiência Pedagógica Ignorada

O método freiriano é, comprovadamente, um dos mais eficazes instrumentos pedagógicos já desenvolvidos. E tal afirmação não é uma simples questão de ideologia política, é questão de prática e de resultado. E sempre que alguém aponta essa eficácia, especialmente num ambiente polarizado como o brasileiro, a extrema-direita espuma pela boca e arranca os cabelos da cabeça. Mas aqui vai uma verdade que precisa ser repetida mil vezes: infelizmente, o método freiriano não é usado efetivamente no Brasil. Não existe uma catilha freiriana obrigatória a ser seguida nas escolas. Entretanto, alguém ainda pode perguntar: “Mas como assim? A esquerda não adora Paulo Freire? Ela não vive o exaltando?”. Pois é — e é exatamente aí que está a ironia. O método freiriano exige na realidade condições materiais muito específicas para ser aplicado de verdade , e essas condições simplesmente não existem no sistema educacional brasileiro. Portanto, não adianta os representantes políticos do Estado citar Paulo Fr...

A Crítica de Adorno ao Rádio e os Equívocos de uma Interpretação Apressada

A reflexão adorniana sobre os meios de difusão da arte — em especial, a música — é, frequentemente, alvo de incompreensões e leituras que tendem a reduzir seu alcance filosófico a um mero tecnofobismo elitista. É o que se percebe na tentativa, recorrente em certos debates contemporâneos, de refutar a crítica de Theodor W. Adorno à escuta da música sinfônica pelo rádio com argumentos que, embora bem intencionados, negligenciam a densidade estrutural de sua análise. Um exemplo disso aparece nessa postagem de uma redes social (confira esse link para acessá-la:  https://www.instagram.com/p/DLx-E8tuMvV/?igsh=MThoYWNob2UzNjdudw== ), onde se afirma que Adorno "toca num problema comum" ao mencionar a escuta da Quinta de Beethoven por meio do rádio, resumindo a experiência auditiva à sucessão de "melodias ou trechos, à maneira de citações ou destaques". De fato, Adorno se mostra preocupado com os modos como os processos sociais interferem na recepção estética. Mas seu foco n...

Quem Gera Emprego Não É o Patrão, É a Demanda: Desmontando o Mito do Empresário-Herói

Recentemente li uma frase do economista e professor Elias Jabbour nas redes sociais que me chamou bastante atenção sobre a relação entre demanda e a geração de empregos. No entanto, o que me impressionou mesmo foi os comentários das pessoas ignorantes querendo rebater a frase do Elias, mas tais respostas pareciam apenas causar uma polêmica desnecessária e sem sentido sobre um assunto que evidentemente elas desconhecem. Percebo que as pessoas (os tais pobres de direita, segundo o sociólogo Jessé Souza) falam muitas asneiras para defender os bilionários e a dinâmica de exploração da propriedade privada dos meios de produção. Isso sem dúvida é muito triste. A falta de consciência de classe leva o sujeito a esse tipo de alienação. Todavia, voltemos a história da frase proferida pelo professor Jabbour. O que ele falou afinal que acabou instigando esses comentários raivosos? Ele disse que: "Quem gera emprego no Brasil não é o empresário. O que gera emprego é a demanda." Ora, essa f...

Educação X Inteligência Artificial: um novo problema da "Educação Bancária"

Cada vez mais, os estudantes estão realizando todas as atividades escolares com o auxílio da Inteligência Artificial para obter as respostas. Por conta disso, temos diante de nós um problema gravíssimo no processo de aprendizado atual: a crescente dependência intelectual dos jovens em relação a essa ferramenta tecnológica. Entretanto, é preciso alertar que o problema não está, em si, na IA, mas na forma como o aprendizado está estruturado no Brasil. Desse modo, não podemos fazer uma crítica baseada em um tecnofobismo ingênuo; devemos nos ater à prática pedagógica dominante, difundida pelo sistema educacional. A triste realidade é que vivemos em um sistema educacional utilitarista, que valoriza exclusivamente o indicador “nota” como forma de avaliação e despreza o saber em si. Temos, portanto, uma educação preocupada em atingir metas e resultados. O grande educador brasileiro Paulo Freire já denunciava a chamada “educação bancária”, na qual o conhecimento é depositado no aluno, sem diál...

Resenha Crítica — “Sete Miniaturas para Clarinete, Op. 65”, de Janilson Fialho

Na obra Sete Miniaturas para Clarinete , Op. 65, apresento uma composição de espírito livre e estrutura fragmentária, que dialoga diretamente com a tradição das pequenas formas musicais modernas e com a liberdade tímbrica e expressiva das linguagens contemporâneas. Cada peça funciona como uma vinheta sonora, uma cena breve mas carregada de intenção, onde o clarinete é desafiado tanto técnica quanto poeticamente. A escolha pela forma "miniatura" não é meramente estrutural; é estética. Compreendo, assim como Webern e Kurtág, que o pequeno não é o oposto do grande, mas sim sua condensação. As miniaturas oscilam entre o lúdico e o introspectivo, o dançante e o lírico, em um fluxo que exige do intérprete sensibilidade refinada para as nuances de cada gesto sonoro. A fluidez dos tempos indicados (como Allegretto poco più , Vivace , Andantino , Calmo , Andante e Vivace , novamente) sugere um percurso emocional dinâmico, quase narrativo, sem que se torne descritivo. Harmonias desl...

Apresentação da Arcádia Aeterna

Bem-vindos ao Arcádia Aeterna, um espaço de reflexão e debate sobre as interseções entre arte, filosofia e política. Aqui, você encontrará ensaios, críticas e análises sobre as principais questões que afetam a sociedade e a cultura. Nosso objetivo é criar um espaço de discussão e troca de ideias, onde os leitores possam se sentir inspirados a pensar criticamente sobre o mundo ao seu redor.