Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de outubro, 2025

A Aura da Arte: Valor em Si ou Construção Externa?

O objetivo deste ensaio é formular uma crítica a um dos problemas apresentados no meu curso "A Ideia de Música Absoluta de Carl Dahlhaus", que iniciou no último sábado (18/10) e que ainda está sendo realizado na Escola de Música Genaldo Cunha Lins. Pretendemos aqui apresentar a teoria do autor que estamos trabalhando e fazer uma critica a suas ideias com algum tema relevante e próximo ao assunto. Portanto, sem mais delongas, vamos ao nosso problema. A história do roubo da Mona Lisa , ocorrido em 1911, nos revela algo profundamente inquietante sobre o modo como atribuímos valor às obras de arte. Antes do episódio, a pintura de Leonardo da Vinci era apenas uma entre tantas outras de grande relevância histórica, mas não despertava o fascínio quase mítico que hoje lhe é atribuído. Após o roubo e a intensa cobertura midiática que se seguiu, o quadro retornou ao Louvre transformado em símbolo absoluto da genialidade e da beleza artística. A questão que emerge é: o valor da Mona Lis...

O CORPO COMO MERCADORIA NO CAPITALISMO

A obsessão pela juventude e a busca incessante por um corpo “perfeito” são fenômenos centrais na sociedade contemporânea, e a sua análise revela uma profunda conexão com a lógica do capitalismo. Nesse contexto, o corpo humano deixa de ser um mero invólucro biológico e se transforma em uma mercadoria, um projeto contínuo de aprimoramento e uma representação visível do sucesso e da saúde. No entanto, essa busca por um ideal inalcançável não nos leva à felicidade, mas a um estado de adoecimento físico e, sobretudo, mental, como a depressão e a ansiedade. O consumo contemporâneo intensifica esse processo ao transformar a saúde e o corpo em projetos de performance e otimização. Como afirma Gilles Lipovetsky, vivemos a “busca das felicidades privadas, a otimização dos nossos meios corporais e relacionais, a saúde ilimitada, a conquista de espaços-tempos personalizados” (2007, p.37). Assim, a mercantilização do corpo não se reduz a uma questão estética, mas está ligada a uma dinâmica social q...

Domenico Losurdo sobre o Problema da Metáfora em Nietzsche

No livro "Nietzsche, o rebelde aristocrata" de Domenico Losurdo, tem como primeiro tópico da quarta parte da obra: "A metáfora como remoção e o atalho da antecipação." O ponto central de Losurdo é a crítica aos apologetas de Nietzsche, que tentam proteger o filósofo das acusações de proto-nazismo ao alegarem que suas ideias mais extremas eram apenas metáforas ou alegorias. Losurdo argumenta que esses defensores ignoram ou "removem" os apelos frequentes de Nietzsche à barbárie, ao aniquilamento de "raças decadentes" e de "milhões de malsucedidos." Por exemplo, a obsessiva insistência de Nietzsche na escravidão como fundamento da civilização é tratada como uma metáfora, visando evitar a associação com práticas históricas concretas, como a situação no Sul dos Estados Unidos antes da Guerra de Secessão. Segundo Losurdo, essa técnica que blinda Nietzsche das críticas acaba transformando ele em um perfeito idiota incapaz de entender o cont...

Crítica à Metafísica da Música Instrumental e sua Universalidade - Janilson Fialho

O objetivo deste ensaio é formular uma crítica a um dos problemas apresentados no meu curso "A Ideia de Música Absoluta de Carl Dahlhaus", que iniciou no último sábado (18/10) e que ainda está sendo realizado na Escola de Música Genaldo Cunha Lins. Pretendemos aqui apresentar a teoria do autor que estamos trabalhando e fazer uma critica a suas ideias com algum tema relevante e próximo ao assunto. Portanto, sem mais delongas, vamos ao nosso problema. A ideia de que a música instrumental é uma "linguagem universal", capaz de transcender fronteiras culturais e comunicar-se diretamente com a essência humana, constitui um dos pilares da tradição estética ocidental. Desde o romantismo, teóricos como Carl Dahlhaus defenderam a noção de música absoluta , segundo a qual a música instrumental, por ser desprovida de palavras e referências externas, seria uma arte pura, autônoma e autojustificada. Tal concepção, entretanto, carrega um pressuposto problemático: o de que existe u...

CRONOLOGIA DA MÚSICA ABSOLUTA - JANILSON FIALHO

A Metafísica da Música Instrumental (Música Absoluta) só pôde surgir a partir do momento em que a música foi libertada de suas obrigações funcionais e representacionais. A tabela abaixo lista os principais períodos que a antecederam (e o início de sua emergência), destacando o tipo de música que era dominante e as funções não-autônomas que ela geralmente cumpria. Período Histórico Tipo de Música Dominante Função Principal (Antes do Absoluto) Relação com Texto/Programa Idade Média (c. 500 – 1400) Canto Gregoriano, Música Sacra, Polifonia (Organum). Litúrgica, ritualística, didática (para fixar a doutrina). Totalmente subordinada ao texto litúrgico (latim). Renascença (c. 1400 – 1600) Missas, Motetos, Madrigais, Canções (música vocal polifônica). Litúrgica e de entretenimento social (madrigais). Subordinada ao texto para expressar ou "pintar" o sentido da poesia (madrigalismo). Barroco (c. 1600 – 1750) Ópera, Oratório, Cantata; Concerto Grosso, Suítes. Dramática (Ópera), afetiv...

A METAFÍSICA DA MÚSICA INSTRUMENTAL SEGUNDO CARL DAHLHAUS

A música instrumental, desprovida de palavras, imagens ou narrativas explícitas, foi historicamente o espaço privilegiado onde a arte sonora buscou sua justificação metafísica. Em nenhum outro domínio artístico a questão da “essência” da arte se mostrou tão profundamente enraizada quanto na música sem texto. É nesse contexto que Carl Dahlhaus formula uma das mais rigorosas reflexões sobre o estatuto metafísico da música instrumental: a ideia de música absoluta — aquela que se basta a si mesma, que existe como pura forma sonora dotada de sentido intrínseco. Para Dahlhaus, a noção de música absoluta não é um dogma, mas uma construção histórica da consciência estética moderna. Surge no século XIX, quando a música deixa de ser compreendida como mero ornamento da palavra ou como veículo de afetos, e passa a ser vista como “arte autônoma”. Nesse sentido, a metafísica da música instrumental não se funda em um além transcendental, mas na própria experiência imanente do som que se organiza em ...

O NASCIMENTO DA ARTE COMO RELIGIÃO

O conceito de Arte como Religião (Kunstreligion) emerge na estética alemã pós-Kant, particularmente com o Romantismo (Schlegel, Novalis, Schelling) e, posteriormente, ganha contornos complexos em Hegel e Wagner. Sua premissa fundamental é que a Arte se torna o veículo supremo para a manifestação do Absoluto, assumindo as funções de redenção, revelação do mistério e totalização da experiência humana que antes eram exclusivas da religião. A Religião Perdida e o Resgate do Infinito Para os pensadores românticos, o mundo moderno, regido pela ciência e pelo pensamento crítico (Kant), levou à fragmentação do saber e do espírito. O mistério, o sagrado e o infinito foram aprisionados pela razão. Nesse contexto, a Arte, especialmente a música instrumental (a “música absoluta”), é vista como a única esfera capaz de: Expressar o Inefável: A música, desvinculada da palavra e do conceito (como discutido por E.T.A. Hoffmann e os românticos), consegue comunicar diretamente a essência do universo ou ...