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Mostrando postagens de agosto, 2025

Razão e sensibilidade na música serial: uma defesa contra o mito da frieza

Outra vez me vejo dentro de uma uma discussão sobre estética musical. Desta vez um músico observou que, na maioria das tentativas nacionais de utilizar o método composicional de Arnold Schoenberg, o resultado costuma soar sem inflexão emocional. Segundo ele, a experiência de escuta torna-se estritamente lógica e objetiva, destituída da “vida emocional” que daria à música sua vitalidade. Para ele, seria mais saudável fazer obras que despertem estados emocionais sem perder de vista a lógica e a objetividade. Mais adiante, esclareceu que não se tratava de abolir nada, mas de estar mais atento às próprias raízes e fazer música “com alma”, lembrando que uma melodia simples também pode ser bela. Pintura de Arnold Schoenberg, de Richard Gerstl (1905) A questão, contudo, está no que se entende por “alma” nesse contexto. Atribuir à música tonal a qualidade de ser “sensível” e à música atonal — especialmente à dodecafônica ou serial — o rótulo de “racional” é partir de um pressuposto equivocado:...

O fetichismo do livro como objeto de decoração

Estamos testemunhando a consolidação de um fenômeno que é chamado por alguns pesquisadores da literatura e dos costumes de "cultura lombadeira" — uma forma de relação com o livro em que o valor estético da obra, especialmente da lombada e da capa, supera sua função intelectual, crítica e formativa. Trata-se de um tipo de colecionismo que beira o fetichismo, onde o livro não é adquirido para ser lido, pensado ou vivido, mas para ser exibido como objeto de status e composição visual. Essa tendência não surgiu do nada. O próprio mercado editorial vem se reconfigurando para atender a essa demanda visual e colecionista. Editoras como o Clube da Literatura Clássica, a Logos e o Pipoca & Nanquim, entre outras, têm papel decisivo nesse movimento. Apesar de produzirem conteúdos de qualidade — muitas vezes com boas traduções e paratextos ricos —, o apelo central de seus lançamentos reside, frequentemente, na ostentação gráfica: capas luxuosas, lombadas douradas, cortes coloridos, e...