Cada vez mais, os estudantes estão realizando todas as atividades escolares com o auxílio da Inteligência Artificial para obter as respostas. Por conta disso, temos diante de nós um problema gravíssimo no processo de aprendizado atual: a crescente dependência intelectual dos jovens em relação a essa ferramenta tecnológica. Entretanto, é preciso alertar que o problema não está, em si, na IA, mas na forma como o aprendizado está estruturado no Brasil. Desse modo, não podemos fazer uma crítica baseada em um tecnofobismo ingênuo; devemos nos ater à prática pedagógica dominante, difundida pelo sistema educacional.
A triste realidade é que vivemos em um sistema educacional utilitarista, que valoriza exclusivamente o indicador “nota” como forma de avaliação e despreza o saber em si. Temos, portanto, uma educação preocupada em atingir metas e resultados. O grande educador brasileiro Paulo Freire já denunciava a chamada “educação bancária”, na qual o conhecimento é depositado no aluno, sem diálogo, sem criticidade, sem sentido. Nesse modelo, a avaliação torna-se apenas uma forma de controle, e não um instrumento para a aprendizagem.
Sendo objetivo, o estudante é obrigado a decorar e reproduzir respostas, enquanto o docente avalia essa reprodução mecânica. O resultado da avaliação, portanto, resume-se a conferir se o estudante foi capaz de reproduzir fielmente o conteúdo que lhe foi depositado em sala de aula — pouco importando se esse conteúdo tem significado para sua realidade ou para sua emancipação intelectual.
O uso da IA parece adequar-se perfeitamente a essa triste realidade da educação bancária nas escolas brasileiras. Por exemplo, um professor propõe uma atividade, mas o/a estudante, não querendo perder tempo utilizando seu próprio saber (entendido aqui como o saber “decoreba”, ou seja, a simples memorização de datas, frases e informações superficiais), delega à IA a produção da tarefa. A máquina realiza a atividade, e o estudante apenas assina. Ele entrega a atividade, e o professor avalia se as respostas reproduzem um resultado próximo daquilo que foi transmitido em aula. Afinal, a prioridade desse modelo educacional é um resultado positivo para alimentar o sistema com notas e mais notas.
A educação bancária não é libertadora, mas sim opressora, pois não busca a conscientização de seus educandos. Essa educação quer, na verdade, que os corpos e as mentes dos(as) estudantes sejam inconscientes e sujeitos às suas regras. Assim, perpetua-se e reforça-se uma relação vertical e autoritária, em que um subjuga o outro, criando uma dependência mútua. No caso da IA, o pensamento do estudante está submetido ao que a ferramenta dita como resposta. E, por conta disso, ele ou ela não desenvolve capacidade crítica para investigar a veracidade daquilo que lhe é apresentado — justamente porque não foi instigado(a) a fazê-lo.
Freire propunha, portanto, uma educação libertadora, que valorizasse o diálogo entre professor e estudante, a conscientização e a capacidade do indivíduo de transformar a si mesmo e o mundo. Em sua visão, a educação deve ser um processo de construção conjunta do conhecimento, em que tanto o professor quanto o estudante são sujeitos ativos na busca pela compreensão e transformação da realidade. Nenhum dos dois deve permanecer em um estado de passividade intelectual: o professor não deve apenas reproduzir informações de forma mecânica e acrítica, tampouco o/a estudante deve se tornar totalmente dependente de uma ferramenta para realizar suas atividades.
Por Janilson Fialho

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