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Da Imortalidade da Arte pelos Mortais

Assim pergunta a misteriosa Esfinge: "decifra-me ou devoro-te?", e eis o enigma que norteia o problema: acaso podereis enxergar o firmamento que assegura a obra de arte? Por acaso o seu ser-no-mundo se sustenta sozinho? Do que carece seu valor, sua permanência e sua projeção no tempo? O que se insere entre o fazer criativo e o reconhecimento público? Quem é o ser silencioso e decisivo que conduz determinadas obras ao estatuto de clássicos enquanto outras permanecem à margem? Deste modo, temos como propósito questionar como uma obra se torna "universal" ou "essencial", isto é, questionar os próprios mecanismos culturais que constroem sentidos, legitimam discursos e perpetuam narrativas. É nesse espaço de tensão conflituosa, entre criação, seleção e consagração, que lanço esses aforismas e silogismos como advinhas ao debate estético.

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O que faz uma obra de arte ser universal é todo o trabalho humano envolto nela.

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É a mortalidade do ser humano que sustenta a imortalidade da arte.

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A obra de arte tem o seu valor em si, como obra, mas isso é insuficiente. O desvelar dessa aura de valor se dá apenas pelo reconhecimento do olhar humano.

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Sem o olhar valorativo, qualquer obra de arte passa despercebida.

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Não existe uma arte melhor que outra; o que existe é um discurso que confere um status de valor maior a uma obra do que a outra.

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A curadoria possibilita a circulação e o desenvolvimento do valor da arte.

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A curadoria possibilita a sobrevivência da arte e de sua história no decorrer do tempo.

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Existem obras que partilham da mesma técnica, mas o diferencial está no juízo de valor e no interesse daquele que contempla.

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É certo que existem obras que são excelentes por si mesmas, seja por sua técnica, ideia ou narrativa, mas essas qualidades necessitam de duas coisas para se tornarem visíveis: 1º) a contemplação interessada e 2º) o trabalho de curadoria. Ambos são, portanto, necessários para tornar evidente a qualidade da obra.

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Uma obra de arte, por si mesma, é incapaz de ser universal; afinal, nem todas as pessoas conhecem os grandes nomes da literatura, poesia, pintura, escultura ou música.

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Assim como uma obra de arte pode se tornar universal pelo trabalho de curadoria, uma obra de arte ruim também pode se tornar universal através desse trabalho.

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Por que existem obras póstumas? Porque o reconhecimento delas é tardio ou, ainda, porque o trabalho de curadoria foi se desenvolvendo e progredindo aos poucos. Os sujeitos que reconheceram o valor de tal arte foram poucos em sua época de nascimento, mas eles foram os primeiros apologetas a espalhar e comunicar o valor da obra ao mundo.

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O cânone universal das artes, ao que parece (e é bem evidente), sempre parte de uma subjetividade que seleciona o que julga ser bom e o objetiva aos outros. Ao nascer de uma subjetividade, portanto, um cânone sempre será um juízo particular e seletivo sobre a arte.

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A única coisa objetiva na arte é a objetividade do discurso particular, pois, essa ação comunicativa é bastante direta para afirmar a qualidade e a  necessidade universal da obra.

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Olhando para o particular enxergamos apenas um fio da objetividade discursiva da arte (o seu universal), mas expandido o olhar para o todo encontramos uma rede de fios que compõem todas as subjetividades.

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Tudo na arte parece completo quando se está sozinho. Nossas convicções entram em crise sob a presença de outro interprete.

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O velho discurso estético que pensa a obra de arte como um universal soa aos nossos ouvidos hoje como um mero discurso de marketing. Lembre-se: estamos dentro de um mundo capitalista; a lógica desse mundo é fazer da arte uma mera mercadoria. Assim, um discurso que prega "todos devem conhecer essa obra" tem o mesmo peso de "todos devem comprar essa obra".

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A universalidade no capitalismo tem como finalidade expandir a mercadoria a todos os tipos de consumidores possíveis.

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Uma obra de arte entra para a história por causa de toda a construção de sentido em volta de si.

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Por que a arte, em si, não sustenta sua existência? Porque ela requer um cuidado externo, ou seja, um trabalho de curadoria. Até mesmo os “clássicos” não sustentam sua própria existência.

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O status de obra clássica é uma convenção social estabelecida por um grupo de pessoas — que forma a dita curadoria da obra. Eles são os responsáveis por nos convencer de que tal obra possui qualidades e é essencial para nós.

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A curadoria é a condutora da obra de arte ao salão nobre da cultura.

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Tanto a arte erudita quanto a arte popular são expressões de uma voz comunitária ou individual; o desprezo que algumas pessoas cegas da alma sentem por certa corrente artística só existe por conta de um mero favoritismo estético — motivado em partes pelo trabalho de curadoria.

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As curadorias estão sujeitas a serem facções rivais.

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Existe conflito entre os próprios curadores.

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Os clássicos têm um valor subjetivo. Podemos ver claramente que um clássico agrada a uns e desagrada a outros; logo, se houvesse um valor universal objetivo para um clássico, todas as pessoas teriam o mesmo apreço (interesse) por ele.

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Vários são os fatores que tornam uma obra de arte um artigo digno de atenção: seja por sua história, sua estética, sua aparência, sua ideia, sua estranheza, sua peculiaridade ou sua narrativa.

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Existem obras de arte que, por si mesmas, não são tão significativas, mas que, por sua biografia, são dignas de se imortalizarem sob o altar do tempo e da cultura.

29

O simples pode ter uma narrativa complexa; já o complexo pode ter uma natureza biográfica simples.

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A arte habita o terreno conflituoso da cultura e das disputas de significados. Nesta arena bélica, o artista tem como essência, em seu fazer artístico, um pathos sofredor; sua voz já não é mais suficiente para objetivar a natureza de sua criação — há um coro de vozes exorbitantes que dão novas faces à obra.

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Se o artista silenciar o discurso do coro, sua obra morre instantaneamente.


Por Janilson Fialho (08/12/25)

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