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Razão e sensibilidade na música serial: uma defesa contra o mito da frieza

Outra vez me vejo dentro de uma uma discussão sobre estética musical. Desta vez um músico observou que, na maioria das tentativas nacionais de utilizar o método composicional de Arnold Schoenberg, o resultado costuma soar sem inflexão emocional. Segundo ele, a experiência de escuta torna-se estritamente lógica e objetiva, destituída da “vida emocional” que daria à música sua vitalidade. Para ele, seria mais saudável fazer obras que despertem estados emocionais sem perder de vista a lógica e a objetividade. Mais adiante, esclareceu que não se tratava de abolir nada, mas de estar mais atento às próprias raízes e fazer música “com alma”, lembrando que uma melodia simples também pode ser bela.

Pintura de Arnold Schoenberg, de Richard Gerstl (1905)

A questão, contudo, está no que se entende por “alma” nesse contexto. Atribuir à música tonal a qualidade de ser “sensível” e à música atonal — especialmente à dodecafônica ou serial — o rótulo de “racional” é partir de um pressuposto equivocado: o de que sensibilidade e razão são domínios separados e excludentes. A própria experiência humana mostra que não há pensamento totalmente desvinculado de sentimento. Nossa percepção do mundo, inclusive a musical, é sempre atravessada pela sensibilidade, ainda que esta se manifeste de modos variados.

A filosofia de Spinoza, por exemplo, rejeita a divisão entre corpo e mente e defende que o pensamento nasce do afeto — do impulso vital que orienta nossa ação e percepção. Nietzsche, influenciado por essa visão, também recusa a oposição entre racionalidade e sensibilidade, reconhecendo que toda criação artística, mesmo a mais estruturada, nasce de impulsos vitais. Merleau-Ponty, em sua fenomenologia, reforça que a razão é sempre alimentada pelos sentidos; não há intuição intelectual que não seja, antes, uma experiência vivida no corpo.

Aplicando isso à música serial, percebe-se que ela não está isenta de sensibilidade, mas sim revestida de uma estética distinta daquela a que estamos mais habituados. A lógica rigorosa das séries não elimina o campo afetivo, apenas desloca seu foco. A tensão, o estranhamento, a densidade sonora e até o desconforto que ela pode provocar também são respostas sensíveis. Há um prazer estético — ainda que não seja de imediato “agradável” — que nasce justamente dessa outra forma de relação com o som. Raiva, tensão, inquietude, melancolia ou até tédio são afetos tão legítimos quanto a leveza ou a doçura de uma melodia tonal.

Reduzir a música serial à pura razão é, portanto, ignorar que todo ato criativo humano é atravessado pela sensibilidade. O que muda é a maneira como essa sensibilidade se manifesta e como cada ouvinte é capaz de reconhecê-la. Para quem espera consonância e previsibilidade, a serialidade pode soar fria; para quem se abre à experiência de sua lógica interna, ela pode revelar um campo afetivo intenso, embora menos óbvio.

Contudo, a dicotomia entre música “com alma” e música “racional” é ilusória. A sensibilidade não se limita às formas mais familiares de beleza, nem a razão é um território estéril de emoções. Na música serial, razão e sensibilidade se entrelaçam: a estrutura matemática não exclui o afeto, apenas o veste com outras cores. Reconhecer isso é ampliar a escuta e compreender que, mesmo nas formas mais complexas e abstratas de composição, a experiência estética continua sendo, antes de tudo, um fenômeno humano — e, portanto, inseparável do sentir.

Por Janilson Fialho

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