Estamos testemunhando a consolidação de um fenômeno que é chamado por alguns pesquisadores da literatura e dos costumes de "cultura lombadeira" — uma forma de relação com o livro em que o valor estético da obra, especialmente da lombada e da capa, supera sua função intelectual, crítica e formativa. Trata-se de um tipo de colecionismo que beira o fetichismo, onde o livro não é adquirido para ser lido, pensado ou vivido, mas para ser exibido como objeto de status e composição visual.
Essa tendência não surgiu do nada. O próprio mercado editorial vem se reconfigurando para atender a essa demanda visual e colecionista. Editoras como o Clube da Literatura Clássica, a Logos e o Pipoca & Nanquim, entre outras, têm papel decisivo nesse movimento. Apesar de produzirem conteúdos de qualidade — muitas vezes com boas traduções e paratextos ricos —, o apelo central de seus lançamentos reside, frequentemente, na ostentação gráfica: capas luxuosas, lombadas douradas, cortes coloridos, edições limitadas e numeradas. O livro se transforma em peça de colecionador, mais próxima de um item decorativo do que de um instrumento de pensamento.
É nesse contexto que o episódio envolvendo a influenciadora Rafa Kalimann, que admitiu ter comprado livros apenas para enfeitar sua estante, deve ser compreendido. A crítica não deve ser direcionada exclusivamente a ela, mas ao sistema cultural que torna esse tipo de comportamento não só possível, como desejável. Rafa é apenas o sintoma mais visível de uma lógica cultural mais profunda, em que a imagem vale mais do que o conteúdo, e a presença do livro no ambiente serve mais como adorno simbólico do que como motor de formação intelectual.
A cultura lombadeira é, portanto, mais do que um gosto por belas edições: é a expressão de uma sociedade que transforma tudo — inclusive a literatura — em superfície. É a biblioteca que virou cenário. É o saber que virou estética. É o livro que, antes símbolo de profundidade e silêncio, passa a ser apenas mais um item na composição de um feed ou na construção de uma persona sofisticada.
Discutir esse fenômeno não é um ataque ao cuidado gráfico ou à materialidade dos livros — que podem e devem ser valorizados —, mas uma crítica à substituição do conteúdo pela aparência, do sentido pelo fetiche, da leitura pela curadoria visual. Se não estivermos atentos, corremos o risco de formar gerações mais interessadas na lombada do que na linguagem, mais preocupadas com o brilho da capa do que com a densidade das ideias que ela deveria conter.
Por Janilson Fialho

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