A reflexão sobre os elementos constitutivos da linguagem é tema recorrente na história da filosofia. Embora frequentemente associemos a distinção entre significante e significado ao linguista Ferdinand de Saussure, é no pensamento estoico, especialmente em Crisipo (280–207 a.C.), que encontramos uma formulação anterior e surpreendentemente complexa sobre o funcionamento dos signos linguísticos. O compositor e teórico brasileiro Flo Menezes destaca essa anterioridade ao afirmar que Crisipo pode ser considerado o verdadeiro pai da linguística. Este ensaio busca explorar a tríade proposta por Crisipo — significante, significado e coisa significada — e sua inserção na ontologia estoica, marcada pela oposição entre o corpóreo e o incorpóreo.
Segundo a tinologia estoica, ramo da filosofia estóica voltado ao estudo da linguagem, Crisipo defende que toda expressão verbal envolve três dimensões fundamentais. A primeira é o significante, entendido como o som ou expressão vocal — um fenômeno físico que se propaga no espaço. A segunda é o significado (lekton), que corresponde à ideia ou conteúdo mental que o som evoca. E a terceira, menos conhecida na tradição moderna, é a coisa significada (tò tynchánon), ou seja, o objeto real, concreto, ao qual a linguagem se refere.
Enquanto Saussure trabalha com uma dualidade — significante e significado — Crisipo vai além ao introduzir a referência à realidade empírica como parte da estrutura do signo. Essa complexificação revela uma abordagem filosófica mais ampla, em que linguagem, pensamento e mundo não são compartimentos isolados, mas elementos interligados.
Essa estrutura é melhor compreendida à luz da ontologia estoica, que distingue entre o corpóreo e o incorpóreo. Para Crisipo, o som — o significante — é corpóreo, pois vibra e ocupa lugar no espaço. A coisa significada, sendo o objeto no mundo, também é corpórea. Já o significado, por sua vez, é incorpóreo: uma entidade lógica, não física, que se aloja no pensamento e na linguagem. Como exemplo, ao proferirmos a palavra "cavalo", o som é o significante (corpóreo); a ideia mental do cavalo é o significado (incorpóreo); e o animal real que pasta no campo é a coisa significada (corpórea). Essa distinção antecipa debates posteriores sobre a relação entre linguagem e realidade que só seriam retomados séculos mais tarde, por autores como Frege, Wittgenstein e outros filósofos da linguagem.
A teoria linguística de Crisipo, frequentemente ignorada nos manuais de linguística moderna, revela uma compreensão refinada da linguagem como mediação entre o sensível, o inteligível e o real. Sua tríade — significante, significado e coisa significada — não apenas antecipa conceitos fundamentais da linguística estrutural, como também os insere numa metafísica que articula linguagem e cosmos. Ao reconhecer a corporeidade do som e do referente, e a incorporeidade do sentido, Crisipo oferece uma ontologia da linguagem que ainda hoje desafia os estudos contemporâneos. Em tempos de reducionismos semânticos e tecnicismos linguísticos, revisitar o pensamento estoico (mas não daquela forma que é vendida pelos coachs) é um convite a reconectar a linguagem com o mundo — e, sobretudo, com o pensamento que a sustenta.
Por Janilson Fialho

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