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Colóquio: O Que É Música? Um Diálogo sobre John Cage, Silêncio e Provocação

Recentemente, entrei numa discussão provocada pela obra As Slow As Possible, de John Cage — uma composição cuja execução está prevista para durar 639 anos. Como era de se esperar, a proposta gerou reações intensas, sobretudo entre músicos e amantes da tradição. Vi diversos comentários raivosos, indignados, afirmando que aquilo “não era música”. O curioso é que muitos dos que mais criticam a obra se recusam a estudar a fundo tanto a peça quanto o próprio compositor. A reação deles parte não de conhecimento, mas de uma espécie de pânico estético diante do que desafia seus critérios estabelecidos.

Um desses críticos, bastante indignado, decidiu travar um debate comigo. O diálogo foi mais ou menos assim — e serve como retrato de um embate mais profundo sobre o que chamamos de arte.

Ele:
O compositor que não se importa com o ouvinte é um hipócrita. Ninguém escreve música pra ninguém ouvir. Mesmo que seja pra uma pessoa só — a mãe, o pai, um amigo ou namorado — ainda assim é para alguém. John Cage, sinceramente, é um compositor medíocre. Fazer uma música que é só silêncio? Isso qualquer um faz.

Eu:
Mas você teve essa ideia antes dele ou só depois que conheceu sua obra? Porque, se foi depois, então não é verdade que “qualquer um faz”. Cage não apenas teve a ideia antes de você — ele a executou, fundamentou, teorizou. Ideias simples às vezes são revolucionárias justamente por parecerem óbvias depois que alguém as realiza. Como a roda.

E quanto à sua afirmação de que “ninguém escreve música pra ninguém ouvir”, isso é uma generalização apressada. Você está tomando a sua perspectiva como uma régua universal. Existem artistas, sim, que criam em silêncio, para si mesmos, ou para um tempo e ouvinte que talvez nem exista ainda. A arte também pode ser uma forma de introspecção e não apenas de comunicação.

Ele:
Mas música de verdade, né? Não dá pra comparar Miles Davis com esse Cage. Miles era músico de verdade. Cage só fazia factoides. Ele nunca foi longe como compositor. Só ficou conhecido por essas esquisitices.

Eu:
Então vamos por partes. Primeiro: o que você chama de “música de verdade”? Existe “música de mentira”? Ou será que o que você está tentando dizer é que existe música que você considera legítima, e outra que você rejeita com base no seu gosto pessoal?

Se for isso, tudo bem, gosto é subjetivo. Mas chamar Cage de “medíocre” porque ele não atende ao seu gosto pessoal é, no mínimo, desonesto intelectualmente. Medíocre, etimologicamente, é aquilo que não se destaca — mas Cage está nos livros, nas universidades, nos debates mais sérios sobre arte sonora e estética musical. Não gostar dele é seu direito. Mas negar sua relevância histórica e teórica é ignorar a realidade do campo musical.

Ele:
Mas música tem que ter som. O silêncio não é música.

Eu:
Ora, mas o silêncio é um dos fundamentos da música. Qualquer músico que estudou partitura sabe o valor da pausa. O silêncio não é ausência de sentido — é parte da construção sonora. Beethoven usava o silêncio como tensão. Debussy dizia que “a música é o espaço entre as notas”.

Cage não é o primeiro a se interessar pelo silêncio, mas foi o primeiro a tratá-lo como protagonista da escuta. 4’33” não é apenas uma “obra silenciosa” — ela desloca o ouvinte para uma escuta mais atenta, não da obra, mas do mundo ao redor. É uma inversão radical do papel da música: não mais o som controlado, mas o ambiente sonoro que nos cerca.

Ele:
Mas a música de 639 anos é inaudível pra qualquer ser humano. Não tem sentido.

Eu:
Mas quem disse que a única função da música é ser inteiramente ouvida? Será que você não está preso à ideia de que a arte só existe para o consumo imediato e pessoal? As Slow As Possible não é feita para um só ouvinte. Ela se dirige à humanidade como um todo — ela problematiza o tempo, a efemeridade da vida, o gesto artístico como algo que atravessa gerações. É quase uma instalação filosófica. Uma composição que não se limita à experiência individual, mas propõe uma reflexão coletiva sobre duração, continuidade e paciência.

Ele:
Então quer dizer que um som estático é música? Vai me dizer agora que barulho também é música?

Eu:
Olha, essa sua pergunta é interessante, porque foi justamente esse tipo de provocação que levou muitos teóricos e compositores do século XX a repensarem o conceito de música. Segundo estudiosos como Murray Schafer, Pierre Schaeffer, Luigi Russolo e o próprio John Cage, a música pode ser entendida como a organização intencional dos sons no tempo — e isso inclui sons que antes eram considerados “não musicais”, como ruídos, sons da cidade, sons naturais, sons industriais, e até o silêncio.

Murray Schafer, por exemplo, desenvolveu o conceito de paisagem sonora (soundscape), mostrando que todos os sons de um ambiente — não apenas os tradicionais instrumentos musicais — podem ser pensados musicalmente, desde que inseridos dentro de uma proposta composicional. Já Pierre Schaeffer, com a música concreta, utilizava gravações de ruídos cotidianos como matéria-prima para composições, mudando radicalmente a noção de timbre e fonte sonora.

O que você chama de “barulho” pode, sim, ser parte da música, desde que haja uma intenção composicional e uma estrutura pensada por trás. O próprio Cage dizia que “qualquer som pode se tornar musical quando é escutado com atenção”. A questão não é se o som é “agradável” ou “musical” no sentido convencional, mas se ele foi escolhido, organizado e proposto dentro de um contexto estético.

Além disso, o que você chamou de “som estático” — como, por exemplo, um único acorde sustentado por muito tempo — é algo que compositores minimalistas como La Monte Young exploraram profundamente. Isso exige não só técnica, mas um entendimento refinado da percepção auditiva e da ressonância. Não é “qualquer barulho”. É som com intenção, com forma, com proposta.

Ele:
Quer saber? Não vou discutir com você, porque já vi que você vê as coisas pelo lado filosófico. Fica aí ouvindo esse tal de Cage, enquanto eu ouço Beethoven, Mozart, Chopin, Bach, Miles Davis e outros músicos de verdade.

Eu:
Mas você percebe que está, mais uma vez, usando seu gosto pessoal como um critério de verdade? Você está escolhendo quais músicos “valem” com base apenas no que agrada seus ouvidos. Isso não é um problema em si, mas é parcial — e ao mesmo tempo exclui toda uma tradição de vanguarda que, mesmo que não agrade, teve papel fundamental na história da música.

Ele:
Fique com suas ideias e eu com as minhas. Tá tudo certo. Cada um com suas ideias.

Eu:
Tudo bem, respeito isso. Mas se você diz que “tá tudo certo”, então está reconhecendo, mesmo que implicitamente, que sua definição de música é subjetiva e baseada em preferência. Isso já é um avanço no debate. Afinal, se cada um tem seu critério, então o seu também não pode excluir o do outro sem argumentos.

Ele:
Não vou admitir nada. Não tenho obrigação de concordar com sua tese filosófica sobre isso. Nem seu critério é universal.

Eu:
Concordo com você. Meu critério não é universal, nem eu quero impô-lo como se fosse. Mas ele é fundamentado. Eu busco avaliar a importância de um compositor — como Cage — com base no reconhecimento que ele recebeu ao longo do tempo pela crítica, pela academia, pelas escolas de música, pelos artistas que o sucederam.

Se uma obra causa debate, gera reflexão, influencia gerações e transforma a maneira como escutamos e compreendemos os sons — então, sim, isso é relevante. E relevância não se mede só por popularidade, mas pelo impacto intelectual, cultural e histórico.

Portanto, posso dizer com segurança: John Cage é um músico de verdade. Não porque eu gosto dele — mas porque há um corpo de conhecimento que reconhece sua contribuição para o pensamento musical contemporâneo. A sua recusa em aceitá-lo não o torna irrelevante. O tempo e a história já falaram por ele.

Por Janilson Fialho

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