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O Método Freiriano: Eficiência Pedagógica Ignorada

O método freiriano é, comprovadamente, um dos mais eficazes instrumentos pedagógicos já desenvolvidos. E tal afirmação não é uma simples questão de ideologia política, é questão de prática e de resultado. E sempre que alguém aponta essa eficácia, especialmente num ambiente polarizado como o brasileiro, a extrema-direita espuma pela boca e arranca os cabelos da cabeça. Mas aqui vai uma verdade que precisa ser repetida mil vezes: infelizmente, o método freiriano não é usado efetivamente no Brasil. Não existe uma catilha freiriana obrigatória a ser seguida nas escolas.

Entretanto, alguém ainda pode perguntar: “Mas como assim? A esquerda não adora Paulo Freire? Ela não vive o exaltando?”. Pois é — e é exatamente aí que está a ironia. O método freiriano exige na realidade condições materiais muito específicas para ser aplicado de verdade, e essas condições simplesmente não existem no sistema educacional brasileiro. Portanto, não adianta os representantes políticos do Estado citar Paulo Freire em discursos e manter o professor exausto, com trinta, quarenta, cinquenta alunos por sala, em múltiplas turmas, sem tempo sequer pra saber o nome dos estudantes. Então como é possível aplicar uma pedagogia baseada na escuta e na construção de sentido se o professor não tem tempo, nem estrutura, nem energia para conhecer cada aluno em sua singularidade?

O método freiriano não é um sociologismo barato como muitos pensam. Não. Ele exige uma escuta ativa e um olhar que reconhece o aluno, não como um "banco" passivo e vazio onde o conhecimento é depositado, mas como um sujeito histórico, com experiências próprias, traumas, contextos e desejos. Só com essa escuta é possível construir pontes entre a vida do estudante e o conteúdo. E essas pontes são o que há de mais transformador na educação. Quando o aluno sente que aquilo que está aprendendo tem a ver com sua vida — quando o conteúdo faz sentido pra ele, quando ele percebe que aquilo pode transformar sua realidade — o aprendizado acontece de forma rápida e intensa.


Não é nenhum exagero o que acabamos de dizer. É perceptível a alfabetização em poucos encontros com esse método — basta ver a própria experiência de Paulo Freire na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte. Porque ele respeita a dignidade do sujeito e a sua trajetória. E por isso funciona. Se quiséssemos de fato fazer uma revolução educacional no Brasil, o método freiriano deveria ser a base. Esse método é caro? É. Mas talvez nem precisássemos manter as pessoas tanto tempo presas numa estrutura escolar que, segundo a filosofia foucaultiana, mais se parece com uma prisão. Talvez, com um ensino mais efetivo e humano, a escola se tornasse menos opressora e mais libertadora. E, ironicamente, talvez a própria crítica de que a escola “doutrina demais” perdesse o sentido, já que o método freiriano se baseia na autonomia do sujeito e não na imposição de "verdades".

Posso falar disso com certa propriedade, porque ao longo da minha carreira de educador musical eu usei o método freiriano com alguns alunos. A minha sorte é que no lugar onde leciono as aulas se organizam de tal modo que possibilita as condições de não terem turmas tão numerosas. Deste modo, mesmo com a minha timidez, pude criar um vínculo afetivo com alguns alunos, isto é, com os que se aproximavam de mim, os que me procuravam para conversar, para desabafar, para aprender — com esses eu pude aplicar de verdade o método freiriano. Porque essa relação não era vertical, não era a de um temível professor que olha de cima para baixo, mas de um amigo que inspira respeito. Os resultados foram impressionantes.

Aliás, minha pedagogia vai de encontro com a educação freiriana porque eu não me preocupo em seguir o sistema de educação tradicional, isto é, não me preocupo em conferir notas para avaliar o estudante ou estabelecer regras banais para cortar a sua permanência na escola. P'ra mim, essas regras estampam uma intolerância escancarada, e isso mais afasta do que atrai os sujeitos que tem vontade de aprender música.

Confesso que minha primeira experiência com a pedagogia freiriana foi singular e inesperada. Antes de mergulhar nas obras do renomado educador Paulo Freire, tive a oportunidade de aprender sobre essa abordagem pedagógica por meio do meu professor de violão, Wellington Farias. Foi através de sua prática docente inspiradora que eu pude vivenciar os princípios da pedagogia freiriana, muito antes de conhecer as teorias e ideias desse grande pensador brasileiro. Essa experiência inicial não apenas me aproximou, mas também me fez compreender a importância da prática educativa transformadora e libertadora.


Wellington era um educador excepcional, que ia muito além do papel tradicional de professor. Com sua personalidade afetuosa e acolhedora, ele conquistava o coração de seus estudantes. Após as aulas de violão, era comum que ele se reunisse com sua turma de crianças do projeto Mais Educação para conversar sobre os mais variados assuntos, em um momento que ele chamava carinhosamente de "A Hora da Fofoca". Além disso, ele também gostava de levar seus alunos para assistir apresentações e lanchar, criando um ambiente de descontração e companheirismo.

Mas o que mais impressiona é a forma como Wellington se preocupava com o bem-estar de seus estudantes. Destaco uma ocasião em que ele pagou a consulta de vista e os óculos de um aluno de flauta que não enxergava bem, demonstrando sua generosidade e compromisso com a educação integral de seus alunos.

No meu caso pessoal, tive a sorte de ter Wellington como mentor e amigo. Passamos horas conversando sobre filosofia, literatura, música e política, e ele me presenteou com livros de todos os gêneros, mostrando que sua preocupação não era apenas ensinar técnica musical, mas formar um sujeito pensante e crítico. Para mim, Wellington foi mais do que um professor, foi uma figura paterna, que me inspirou e me ajudou a crescer não apenas como músico, mas como pessoa. Sua dedicação e amor pela educação são um exemplo que levarei para sempre.


É numa conversa informal que o professor pratica a escuta ativa, às vezes um simples "bate-papo" é mais pedagógico do que uma sala de aula fria, porque estamos escutando suas dores, suas histórias, suas realidades. Mas dessa conversa podemos depois levar o seu conteúdo pra sala de aula; podemos trazer textos e conteúdos que se relacionam diretamente com aquilo que eles estão vivendo. Isso é o método freiriano em ação: contextualizar o ensino a partir da vida concreta do aluno.

O resultado é quase sempre o mesmo: o aluno mudava da água para o vinho. Em dois, três meses, o sujeito que não conseguia escrever uma redação estava se comunicando com clareza, com confiança.

O que falta no Brasil não é teoria, nem método. Falta vontade política, estrutura e respeito ao professor. Paulo Freire não é um nome bonito pra ser usado simplesmente em cartazes ou em campanhas eleitorais. Ele é um pensador com um projeto de educação radicalmente humano, profundamente eficaz e imensamente ignorado pelo sistema educacional brasileiro.

Por Janilson Fialho

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