Pular para o conteúdo principal

Quem Gera Emprego Não É o Patrão, É a Demanda: Desmontando o Mito do Empresário-Herói

Recentemente li uma frase do economista e professor Elias Jabbour nas redes sociais que me chamou bastante atenção sobre a relação entre demanda e a geração de empregos. No entanto, o que me impressionou mesmo foi os comentários das pessoas ignorantes querendo rebater a frase do Elias, mas tais respostas pareciam apenas causar uma polêmica desnecessária e sem sentido sobre um assunto que evidentemente elas desconhecem.

Percebo que as pessoas (os tais pobres de direita, segundo o sociólogo Jessé Souza) falam muitas asneiras para defender os bilionários e a dinâmica de exploração da propriedade privada dos meios de produção. Isso sem dúvida é muito triste. A falta de consciência de classe leva o sujeito a esse tipo de alienação.

Todavia, voltemos a história da frase proferida pelo professor Jabbour. O que ele falou afinal que acabou instigando esses comentários raivosos? Ele disse que: "Quem gera emprego no Brasil não é o empresário. O que gera emprego é a demanda." Ora, essa frase é uma verdade, e podemos provar aqui nesse texto.

Essa afirmação que provocou as reações inflamadas dos defensores do empresariado teve como argumento a ideia de que os empresários assumem riscos, inovam, investem e pagam salários dignos à classe trabalhadora. Mas o que esses argumentos ignoram — ou evitam discutir — é a base mais simples e incontornável da economia: sem demanda, não há emprego. Portanto, a demanda é o motor da economia — não a boa vontade do patrão.

Será possível que essas pessoas esqueceram a ideologia liberal ensinada pelo "pai da economia moderna" Adam Smith sobre a teoria da "mão invisível do mercado", ou melhor, sobre o interesse próprio como sendo o motor da economia capitalista? Então por que esses defensores de empresários tratam uma ação egoísta como se fosse uma ação de caridade ou de benevolência? Eles ignoram que a teoria de Smith expressa na obra A Riqueza das Nações, fundamental ao liberalismo capitalista, diz isso: "Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos seus próprios interesses". Não há motivo para criar uma imagem moralmente boa do empresário, isto é, de que ele seja um ser caridoso e age pensando no outro; ele não emprega alguém pensando na pobreza do sujeito, mas pensando na sua condição de gerar riqueza para si a partir das competências e habilidades do outro.

Essa ideia, segundo os liberais, de que o interesse próprio de um empresário acaba sendo um ato de benevolência porque de algum modo gerou empregos é uma contradição flagrante dos conceitos de benevolência e caridade, especialmente na perspectiva cristã. A benevolência e a caridade são virtudes que envolvem ações desinteressadas e altruístas, enquanto o egoísmo é motivado pelo próprio benefício — e um empresário está movido pelo seu próprio interesse no lucro. Na Bíblia, Jesus ensina que não se pode servir a dois senhores, Deus e o dinheiro (Mateus 6:24), e que a verdadeira caridade é feita com humildade e sem esperar recompensa (Mateus 6:1-4). Portanto, justificar o egoísmo empresarial como benevolente é uma distorção dos valores cristãos, e os defensores do capitalismo que também se dizem cristãos enfrentam uma contradição difícil de resolver.

Por conseguinte, devemos dizer que a lógica é simples e direta: um patrão só contrata alguém se essa contratação lhe trouxer retorno financeiro. Ele não o faz por benevolência ou por caridade, mas porque há demanda pelos bens ou serviços que sua empresa oferece. Se ninguém comprar o produto, o negócio fecha. E se o negócio fecha, o emprego desaparece. Afinal, porque um empresário iria manter um emprego que não produz mais lucro para ele?

Um empresário não cria um produto ou serviço do nada, sem propósito ou razão. Ele o faz porque percebe uma demanda no mercado, ou seja, ele identifica que há consumidores interessados em adquirir algo que ele pode oferecer. Essa demanda é o motor que impulsiona a criação de empregos, pois ao atender às necessidades dos consumidores, o empresário precisa de mão de obra para produzir, distribuir e vender seu produto ou serviço. Portanto, a demanda é o ponto de partida para a geração de empregos, e não o contrário.

Por isso, quem verdadeiramente gera emprego é quem consome — a população em geral, os trabalhadores que compram comida, vestuário, transporte, cultura e serviços. O empresário apenas organiza os meios de produção para responder a essa demanda crescente. Ele age por interesse no lucro, não por altruísmo.

Diante dessa afirmação, vi um comentário falando o seguinte absurdo contra a demanda: “Mas e a África com fome? Lá tem demanda por alimentos e não tem emprego!”. Esse argumento insensível, bastante recorrente, erra em um ponto crucial: confundir "necessidade" com "demanda econômica".

A fome, segundo Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas (cap. CXLVII), representa uma necessidade humana ontológica — todos temos fome —, mas isso só se torna uma demanda econômica se houver poder de compraUm milhão de pessoas famintas não geram demanda no mercado capitalista se não tiverem dinheiro para comprar alimento. O capitalismo não responde à necessidade, mas ao consumo monetário. Por isso, a fome persiste mesmo onde há alimentos em excesso. O problema neste caso é a pobreza, não a ausência de empresários corajosos.


Outro comentário falacioso, e também bastante comum, afirma que: “Quem emprega se arrisca! Ele paga a todos!”. Essa história do empresário que “paga todo mundo” e assume os riscos do investimento é povoado por muitos exageros. Sim, há riscos, como em qualquer negócio. Mas o ponto central continua: ninguém investiria um centavo se não houvesse uma expectativa de lucro baseada na existência de demanda. Portanto, é improvável um empresário querer investir em algo incerto de lucro. O investimento incerto fica por conta do Estado.

Além disso, é ilusório dizer que o empresário “paga tudo”. Qual a natureza da riqueza da empresa? De onde vem o dinheiro que paga os salários? Do consumo. Se ninguém comprar o que a empresa oferece, ela fecha — mesmo com todo o “risco assumido”.

Outros comentários ainda diziam que, se não for o empresário, então o Estado teria que “imprimir dinheiro” para pagar salários e benefícios. Esse tipo de argumento revela um profundo desconhecimento sobre o papel que o Estado desempenha na economia. Governos não existem para substituir o mercado, mas para regular, investir, redistribuir renda e estimular a demanda.

Políticas públicas como aumento do salário mínimo, programas sociais, infraestrutura e saúde pública injetam dinheiro diretamente na base da economia, ampliando o poder de compra da população — ou seja, aumentando a demanda e, por consequência, gerando mais empregos.

Dito isto, queremos afirmar que a figura do empresário não é nenhum “Herói Solitário”. Mas também não queremos desmerecer completamente o trabalho de alguns empresários, principalmente dos pequenos empreendedores, não é esse o nosso objetivo aqui. Queremos apenas apontar o erro grotesco que é exaltá-los como se fossem os únicos responsáveis pela economia e por ignorar toda uma rede coletiva de produção, consumo e trabalho.

Deste modo, o problema está na narrativa ideológica que transforma o empresário em um herói e o trabalhador em peso morto. O capital só se multiplica porque há trabalhadores produzindo e consumidores comprando. O lucro não brota da genialidade individual, mas da estrutura social do trabalho coletivo.

Assim chegamos a conclusão dessa questão: sem demanda, não há emprego. Os empregos não são criados por mágica nem por boa vontade. Eles só existem quando há consumidores dispostos e capazes de comprar aquilo que será produzido. Isso depende da renda das pessoas, da distribuição de riqueza, das condições sociais. Em resumo: depende de políticas públicas e de uma economia que coloque o povo no centro.

Por fim, da próxima vez que alguém disser que “quem gera emprego é o empresário”, vale perguntar: Quem vai comprar o que ele vende? Quem põe dinheiro na roda da economia? A resposta é simples: nós, trabalhadores. Sem demanda, não há capitalismo que funcione.

Por Janilson Fialho.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha Crítica — “Sete Miniaturas para Clarinete, Op. 65”, de Janilson Fialho

Na obra Sete Miniaturas para Clarinete , Op. 65, apresento uma composição de espírito livre e estrutura fragmentária, que dialoga diretamente com a tradição das pequenas formas musicais modernas e com a liberdade tímbrica e expressiva das linguagens contemporâneas. Cada peça funciona como uma vinheta sonora, uma cena breve mas carregada de intenção, onde o clarinete é desafiado tanto técnica quanto poeticamente. A escolha pela forma "miniatura" não é meramente estrutural; é estética. Compreendo, assim como Webern e Kurtág, que o pequeno não é o oposto do grande, mas sim sua condensação. As miniaturas oscilam entre o lúdico e o introspectivo, o dançante e o lírico, em um fluxo que exige do intérprete sensibilidade refinada para as nuances de cada gesto sonoro. A fluidez dos tempos indicados (como Allegretto poco più , Vivace , Andantino , Calmo , Andante e Vivace , novamente) sugere um percurso emocional dinâmico, quase narrativo, sem que se torne descritivo. Harmonias desl...

Da Imortalidade da Arte pelos Mortais

Assim pergunta a misteriosa Esfinge: "decifra-me ou devoro-te?", e eis o enigma que norteia o problema: acaso podereis enxergar o firmamento que assegura a obra de arte? Por acaso o seu ser-no-mundo se sustenta sozinho? Do que carece seu valor, sua permanência e sua projeção no tempo? O que se insere entre o fazer criativo e o reconhecimento público? Quem é o ser silencioso e decisivo que conduz determinadas obras ao estatuto de clássicos enquanto outras permanecem à margem? Deste modo, temos como propósito questionar como uma obra se torna "universal" ou "essencial", isto é, questionar os próprios mecanismos culturais que constroem sentidos, legitimam discursos e perpetuam narrativas. É nesse espaço de tensão conflituosa, entre criação, seleção e consagração, que lanço esses aforismas e silogismos como advinhas ao debate estético. 1 O que faz uma obra de arte ser universal é todo o trabalho humano envolto nela. 2 É a mortalidade do ser humano que sustenta...

Educação X Inteligência Artificial: um novo problema da "Educação Bancária"

Cada vez mais, os estudantes estão realizando todas as atividades escolares com o auxílio da Inteligência Artificial para obter as respostas. Por conta disso, temos diante de nós um problema gravíssimo no processo de aprendizado atual: a crescente dependência intelectual dos jovens em relação a essa ferramenta tecnológica. Entretanto, é preciso alertar que o problema não está, em si, na IA, mas na forma como o aprendizado está estruturado no Brasil. Desse modo, não podemos fazer uma crítica baseada em um tecnofobismo ingênuo; devemos nos ater à prática pedagógica dominante, difundida pelo sistema educacional. A triste realidade é que vivemos em um sistema educacional utilitarista, que valoriza exclusivamente o indicador “nota” como forma de avaliação e despreza o saber em si. Temos, portanto, uma educação preocupada em atingir metas e resultados. O grande educador brasileiro Paulo Freire já denunciava a chamada “educação bancária”, na qual o conhecimento é depositado no aluno, sem diál...