O objetivo deste ensaio é formular uma crítica a um dos problemas apresentados no meu curso "A Ideia de Música Absoluta de Carl Dahlhaus", que iniciou no último sábado (18/10) e que ainda está sendo realizado na Escola de Música Genaldo Cunha Lins. Pretendemos aqui apresentar a teoria do autor que estamos trabalhando e fazer uma critica a suas ideias com algum tema relevante e próximo ao assunto. Portanto, sem mais delongas, vamos ao nosso problema.
A história do roubo da Mona Lisa, ocorrido em 1911, nos revela algo profundamente inquietante sobre o modo como atribuímos valor às obras de arte. Antes do episódio, a pintura de Leonardo da Vinci era apenas uma entre tantas outras de grande relevância histórica, mas não despertava o fascínio quase mítico que hoje lhe é atribuído. Após o roubo e a intensa cobertura midiática que se seguiu, o quadro retornou ao Louvre transformado em símbolo absoluto da genialidade e da beleza artística. A questão que emerge é: o valor da Mona Lisa estava nela — em sua composição, técnica e forma — ou foi produzido externamente, pela narrativa de sua ausência e recuperação?
Essa reflexão toca diretamente o conceito de música absoluta, tema central em nosso curso. A música absoluta é concebida como uma “coisa em si”, uma arte autônoma, cujo sentido não depende de palavras, imagens ou histórias. Em outras palavras, a obra musical bastaria por si mesma, sendo plenamente significativa em sua forma sonora pura. Ela não necessitaria de apoio em ideias extramusicais, como literatura, mitologia ou acontecimentos históricos. A música, nesse ideal, seria um fenômeno de valor intrínseco — sua beleza residiria na própria estrutura, nas relações harmônicas e na coerência interna da composição.
Mas o caso da Mona Lisa nos obriga a questionar: existe mesmo um valor em si na arte, ou todo valor é resultado de construções externas? Quando uma obra é considerada genial, será que essa genialidade é uma propriedade objetiva, imanente à obra, ou um produto das interpretações, das narrativas e dos contextos que a cercam? A música de Beethoven seria tão grandiosa se não existisse a figura mítica do gênio surdo, lutando contra o destino trágico de sua surdez? Amamos os quadros de Van Gogh porque eles são formalmente extraordinários, ou porque conhecemos a história trágica de um artista incompreendido?
A arte, talvez, oscile entre esses dois polos: o da "autonomia estética", que busca o valor em si mesmo, e o da "heteronomia simbólica", que reconhece a dependência da arte em relação às narrativas, aos contextos e às emoções humanas que a envolvem. O roubo da Mona Lisa mostra como um acontecimento externo pode redefinir completamente o estatuto de uma obra, criando uma aura que ultrapassa o objeto material. Walter Benjamin já alertava que a aura da arte está ligada à sua singularidade e à sua distância mítica — uma distância que, paradoxalmente, foi reforçada quando a Mona Lisa desapareceu do olhar público.
Assim, a pergunta que resta é um tanto provocadora: a arte vale por aquilo que ela é ou pelo que nós dizemos que ela é? A música absoluta, ao buscar sentido apenas em si, tenta preservar uma pureza que talvez seja impossível na experiência humana da arte — pois o olhar, o ouvido e a emoção sempre carregam consigo histórias, memórias e expectativas. No fim das contas, talvez — e só talvez — a arte nunca exista “em si”, mas sempre “em relação”. E é justamente essa relação — entre o objeto e o olhar, entre o som e a escuta, entre o quadro e sua história — que dá à arte sua aura, seu mistério e seu poder.
Por Janilson Fialho

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