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Domenico Losurdo sobre o Problema da Metáfora em Nietzsche

No livro "Nietzsche, o rebelde aristocrata" de Domenico Losurdo, tem como primeiro tópico da quarta parte da obra: "A metáfora como remoção e o atalho da antecipação." O ponto central de Losurdo é a crítica aos apologetas de Nietzsche, que tentam proteger o filósofo das acusações de proto-nazismo ao alegarem que suas ideias mais extremas eram apenas metáforas ou alegorias.

Losurdo argumenta que esses defensores ignoram ou "removem" os apelos frequentes de Nietzsche à barbárie, ao aniquilamento de "raças decadentes" e de "milhões de malsucedidos." Por exemplo, a obsessiva insistência de Nietzsche na escravidão como fundamento da civilização é tratada como uma metáfora, visando evitar a associação com práticas históricas concretas, como a situação no Sul dos Estados Unidos antes da Guerra de Secessão. Segundo Losurdo, essa técnica que blinda Nietzsche das críticas acaba transformando ele em um perfeito idiota incapaz de entender o contexto político de seu próprio tempo.

A mesma "remoção" é aplicada ao tema da criação e do biologismo nietzschiano, que são interpretados como meras alegorias para a autodisciplina moral. Losurdo refuta isso citando o próprio Nietzsche em Crepúsculo dos Ídolos, onde ele fala explicitamente da "domesticação do animal homem" e da "reprodução de uma determinada espécie humana" em termos zoológicos ou zootécnicos.

A argumentação de Nietzsche em favor da Eugenia é destacada, especialmente suas referências a Galton (criador do darwinismo social, uma teoria eugenista). Nietzsche chega a propor "casamentos ajuizados" para obter melhoramentos genéticos em humanos, comparando-os à "criação permanente de cães ou cavalos." Mais radicalmente, ele contrapõe o mandamento eugênico "não gerar" à proibição bíblica de "não matar."

Losurdo questiona como esses conceitos — aniquilamento de malsucedidos, castração, eugenia — podem ser considerados meras figuras de linguagem em Nietzsche, quando eram conceitos amplamente difundidos e debatidos na cultura e nas publicações científicas da época. Por acaso Nietzsche era tão ignorante assim que não tinha noção da proposta eugenista de Galton para ficar utilizando os seus termos?

Como podemos aceitar que o discurso de Nietzsche é uma alegoria sendo que na época dele tais conceitos eram "científicos"? Eles eram divulgados com seriedade acadêmica, então como o discurso racista de Nietzsche pode ser uma exceção no meio de uma cultura racista?

Concluímos que essa leitura "ingênua" dos apologetas impede a reconstrução do significado histórico-político da filosofia, fazendo os conflitos sociais e políticos "desaparecerem" no campo da arte e da filosofia. Para Losurdo, para que Nietzsche seja apreciado como um grande filósofo, "deve ser em primeiro lugar defendido contra os seus apologetas", que o tornam inofensivo e "retardado" ao que ele citava em suas obras.

Por Janilson Fialho

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