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O CORPO COMO MERCADORIA NO CAPITALISMO

A obsessão pela juventude e a busca incessante por um corpo “perfeito” são fenômenos centrais na sociedade contemporânea, e a sua análise revela uma profunda conexão com a lógica do capitalismo. Nesse contexto, o corpo humano deixa de ser um mero invólucro biológico e se transforma em uma mercadoria, um projeto contínuo de aprimoramento e uma representação visível do sucesso e da saúde. No entanto, essa busca por um ideal inalcançável não nos leva à felicidade, mas a um estado de adoecimento físico e, sobretudo, mental, como a depressão e a ansiedade.

O consumo contemporâneo intensifica esse processo ao transformar a saúde e o corpo em projetos de performance e otimização. Como afirma Gilles Lipovetsky, vivemos a “busca das felicidades privadas, a otimização dos nossos meios corporais e relacionais, a saúde ilimitada, a conquista de espaços-tempos personalizados” (2007, p.37). Assim, a mercantilização do corpo não se reduz a uma questão estética, mas está ligada a uma dinâmica social que transforma a própria existência em objeto de gestão e de consumo.

A coluna da Revista Cult, intitulada “O que está adoecendo você realmente é o capitalismo” (AZEVEDO, 2025), oferece um ponto de partida crítico para essa discussão. O autor diz que há um paradoxo evidente: quanto mais se fala em saúde e bem-estar, mais se produz adoecimento. Isso se dá porque, “o capitalismo, ao mesmo tempo em que promete felicidade e longevidade, fabrica corpos cansados, mentes ansiosas e subjetividades em permanente estado de cobrança” (AZEVEDO, 2025). O corpo, nesse contexto, deixa de ser espaço de experiência e se converte em objeto de gestão, controle e mercantilização, exatamente como já apontam as narrativas estéticas e críticas sobre a ditadura da aparência. Portanto, apesar da sociedade estar obcecada por bem-estar e saúde, ela também está estruturalmente adoecendo.

O problema, apontado na coluna, não reside em falhas individuais, mas nas próprias engrenagens do sistema capitalista, que transforma a saúde em uma mercadoria e a doença em um fracasso pessoal. A instabilidade econômica, a insegurança no mercado de trabalho e a exaustão imposta por uma vida competitiva são fatores que contribuem diretamente para o aumento de quadros de hipertensão, diabetes, depressão e ansiedade (AZEVEDO, 2025). Essa patologização da vida, vista como um processo natural, é, na verdade, uma consequência direta do modo como a sociedade está organizada.

Esse movimento é reforçado por práticas sociais que misturam saúde, espiritualidade e estética. Como observa Maffesoli (2004, p. 149), “o culto do corpo, os cuidados dietéticos, a deificação da natureza, o sincretismo filosófico ou religioso e a ecologia do espírito expressam-se em todas as idades e classes sociais. [...] Esses fenômenos, ao não abdicarem em nada do espírito, privilegiam a experiência, a interatividade, os sentidos humanos”. Ainda que sob o discurso de equilíbrio e bem-estar, essas práticas revelam a inserção do corpo em uma lógica de mercado, onde até o cuidado de si se torna produto e espetáculo.

A mídia e a cultura de consumo são agentes cruciais nesse processo. O mangá Helter Skelter, de Kyoko Okazaki, ou no sentido original em japonês: Okazaki Kyoko, ilustra com clareza, por exemplo, o problema da “gerontofobia”, ou seja, o medo de envelhecer (LINK, 2021). A obra retrata a supermodelo Liliko, uma figura midiática que, por trás da fachada de beleza e sucesso, esconde um corpo completamente artificial e uma sanidade em colapso (OKAZAKI, 2020). Liliko é a personificação da indústria da beleza como uma máquina de criar e destruir, onde a busca pela juventude eterna e por um corpo ideal se torna uma espiral de autodestruição. O mangá evidencia como essa “pandemia de rostos” (LINK, 2021), na qual nos espelhamos em ídolos “jovens, bonitos e bem-sucedidos”, não leva à autoaceitação, mas a uma angústia constante e à perda da própria identidade.

Essa temática é aprofundada nos filmes do subgênero do “terror corporal”, como A Substância (2024) e A Meia-irmã Feia (2025). Em “A Substância”, a ex-estrela de TV Elisabeth Sparkle, interpretada por Demi Moore, se sente obsoleta e envelhecida pela indústria. Para reverter o processo, ela cria uma versão mais jovem e perfeita de si mesma (LINK, 2024). No entanto, o filme rapidamente se torna uma metáfora grotesca para a autodestruição, mostrando a degradação física do corpo original de Elisabeth à medida que a versão ideal, Sue, prospera. O longa utiliza o horror explícito para expor a crueldade do etarismo e a pressão social que faz com que indivíduos se odeiem a ponto de destruir sua própria realidade em busca de uma perfeição inatingível (LINK, 2024).

Da mesma forma, A Meia-irmã Feia (2025) utiliza a estética do "terror corporal" para criticar os padrões de beleza. A trama, uma releitura macabra do conto da Cinderela, foca em Elvira, a meia-irmã que é forçada pela mãe a passar por procedimentos cirúrgicos extremos e dolorosos para se casar com o príncipe (AMARAL, 2025). O filme expõe de forma chocante o sofrimento físico e psicológico por trás da busca por aceitação social. As cirurgias bizarras e grotescas a que Elvira se submete tornam-se uma metáfora visual para a violência da ditadura da beleza, mostrando como a pressão familiar e social pode levar à destruição do corpo real em favor de um corpo ideal.

Michel Foucault, em sua conferência O corpo utópico, argumenta que o corpo é, ao mesmo tempo, limite e fonte de todas as utopias. Ele escreve: “meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo” (FOUCAULT, 2018, p. 3). Contudo, é justamente dessa condição de peso e finitude que nasce a utopia de um corpo sem corpo, belo, transparente, imortal. Essa tensão entre o corpo real — inevitavelmente marcado pela velhice, pela dor e pela falha — e o corpo utópico — perfeito, jovem, incorpóreo — atravessa tanto a cultura quanto as narrativas artísticas.

Nos exemplos analisados, vemos como essa utopia se volta contra o corpo real. A protagonista de Helter Skelter encarna a recusa da “topia desapiedada” de que fala Foucault, tentando apagar os limites de sua materialidade através da cirurgia e da estética. Do mesmo modo, em A Substância, o corpo é literalmente dividido em dois — um degradado e outro idealizado —, dramatizando a utopia foucaultiana de um corpo luminoso e sem falhas. Já em A Meia-Irmã Feia, o grotesco funciona como lembrança de que o corpo nunca corresponde à imagem utópica que se lhe impõe, e que essa impossibilidade é precisamente o que alimenta o horror. Em todos esses casos, a promessa de um corpo perfeito revela-se não apenas inalcançável, mas também destrutiva, pois, como Foucault adverte, “é contra o corpo, e como que para apagá-lo, que nasceram todas as utopias” (FOUCAULT, 2018, p. 4).

Assim, o corpo como mercadoria revela o paradoxo da modernidade capitalista: ao mesmo tempo em que promete saúde, beleza e juventude, impõe sofrimento psíquico e físico. A ditadura da aparência, nutrida pela lógica de consumo, reforça a gerontofobia, aprofunda desigualdades e captura o desejo humano em um ciclo de insatisfação permanente. O corpo, transformado em produto, deixa de ser espaço de experiência para se tornar campo de exploração e alienação. Em última instância, o que adoece não é o corpo em si, mas o sistema que o mercantiliza, moldando-o segundo os imperativos de uma lógica que transforma até mesmo a vida em mercadoria.

O hiperconsumidor, nesse cenário, já não busca apenas bens materiais, mas experiências intensificadas, mediadas pelo corpo. Lipovetsky (2007, p. 54) aponta que “o hiperconsumidor já não procura tanto a posse das coisas por elas mesmas, mas, sobretudo, a multiplicação das experiências, o prazer da experiência pela experiência, a embriaguez das sensações e das emoções novas”. O corpo, nesse sentido, é ao mesmo tempo veículo e vítima dessa lógica, pois carrega a promessa de prazer e juventude eterna, mas devolve frustração e adoecimento.

Em suma, as obras apresentadas revelam que a ditadura da beleza e a gerontofobia não são meras vaidades individuais, mas sintomas de um sistema capitalista que transforma o corpo em um objeto de consumo e de competição. A busca pelo “corpo perfeito” nos filmes e no mangá leva à fragmentação da identidade, ao auto-ódio e a um ciclo de destruição. O terror corporal se torna a linguagem perfeita para representar o impacto físico e psicológico dessa obsessão, enquanto a crítica social da Revista Cult nos lembra que o verdadeiro mal está na raiz do sistema que nos adoece coletivamente.

Por Janilson Fialho

REFERÊNCIAS:

A SUBSTÂNCIA. Direção: Coralie Fargeat. Produção: Working Title Films. França; Estados Unidos; Reino Unido: Working Title Films, 2024. 1 filme (141 min.).

A MEIA-IRMÃ FEIA. Direção: Emilie Blichfeldt. Produção de Mer Film, Lava Films, Zentropa Sweden e Motor Productions. Noruega; Polônia; Suécia; Dinamarca: s.n., 2025. 1 filme (105 min).

AMARAL, Matheus. THE UGLY STEPSISTER é um TERROR CORPORAL cheio de PROFUNDIDADE!. In Cinestera. YouTube, 2025. Disponível em: https://youtu.be/gvYWPRmuZsM?si=Cz9mULQDnsc7z5ce. Acesso em: 10 set. 2025.

AZEVEDO, I. O que está adoecendo você realmente é o capitalismo. In Revista Cult, 2025. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/o-que-esta-adoecendo-voce-realmente-e-o-capitalismo/. Acesso em: 10 set. 2025.

FOUCAULT, Michel. O corpo utópico. Trad. Salma Tannus Muchail. Conferência realizada em 1966. Disponível em: https://farofafilosofica.blog/wp-content/uploads/2018/06/o-corpo-utopico-michel-foucault.pdf. Acesso em: 10 set. 2025.

LIPOVETSKY, Gilles. A Felicidade Paradoxal: Ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Lisboa: Edições 70, 2007.

LINK, Alexandre. A PANDEMIA de rostos belos, jovens e sorridentes! A lição de HELTER SKELTER. In Quadrinhos na Sarjeta. YouTube, 2021. Disponível em: https://youtu.be/5vFl0NKqEEI?si=nRcvqiuxfVjnplwo. Acesso em: 10 set. 2025.

LINK, Alexandre. FILME FÚTIL, SEM CONTEÚDO, OBJETIFICA AS MULHERES! A Substância é bom por causa disso tudo. In Quadrinhos na Sarjeta. YouTube, 2024. Disponível em: https://youtu.be/GTKP3IuHU5M?si=6qiVf0JYlzALExqS. Acesso em: 10 set. 2025.

MAFFESOLI, Michel. A Parte do Diabo: Resumo da subversão pós-moderna. Rio de Janeiro: Editora Record, 2004.

OKAZAKI, Kyoko. Helter Skelter. São Paulo: NewPOP Editora, 2020.

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