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O NASCIMENTO DA ARTE COMO RELIGIÃO

O conceito de Arte como Religião (Kunstreligion) emerge na estética alemã pós-Kant, particularmente com o Romantismo (Schlegel, Novalis, Schelling) e, posteriormente, ganha contornos complexos em Hegel e Wagner.

Sua premissa fundamental é que a Arte se torna o veículo supremo para a manifestação do Absoluto, assumindo as funções de redenção, revelação do mistério e totalização da experiência humana que antes eram exclusivas da religião.

  1. A Religião Perdida e o Resgate do Infinito

Para os pensadores românticos, o mundo moderno, regido pela ciência e pelo pensamento crítico (Kant), levou à fragmentação do saber e do espírito. O mistério, o sagrado e o infinito foram aprisionados pela razão.

Nesse contexto, a Arte, especialmente a música instrumental (a “música absoluta”), é vista como a única esfera capaz de:

  • Expressar o Inefável: A música, desvinculada da palavra e do conceito (como discutido por E.T.A. Hoffmann e os românticos), consegue comunicar diretamente a essência do universo ou o sentimento do infinito — algo que a linguagem conceitual falha em fazer.

  • Totalizar a Experiência: A Arte busca superar a divisão entre sensível e inteligível, entre finito e infinito, reunindo todas as esferas da existência em uma unidade orgânica.

  1. O Culto e a Devoção

Quando a Arte assume o estatuto de religião, a relação do indivíduo com a obra se transforma em culto e devoção.

  • A Obra de Arte como Ícone: A obra não é mais um mero objeto de prazer estético (divertimento), mas um objeto de contemplação sagrada. O gênio artístico é visto como um intermediário ou um profeta que revela verdades universais.

  • A Sala de Concerto como Templo: Carl Dahlhaus, em A Ideia da Música Absoluta, descreve como a sala de concerto se transforma em um espaço sacralizado, onde o público se ajoelha (metaforicamente) perante a obra, exigindo silêncio e reverência para contemplá-la  – uma atitude que antes era reservada aos templos religiosos.

  • A Música como Dogma: A forma pura da música instrumental torna-se o dogma ou o fundamento inquestionável da verdade estética.

  1. A Arte como Religião em Hegel e Wagner

O conceito atinge seu ápice e sua crise em dois momentos cruciais:

Pensador

Conceito

Implicação

G.W.F. Hegel

Religião da Arte

Para Hegel, a Arte é uma etapa necessária, mas ultrapassável, no desenvolvimento do Espírito Absoluto. A Arte como Religião (onde o Espírito se manifesta na forma sensível e contemplável) é uma fase que precisa ser superada pela Religião da Revelação e, por fim, pela Filosofia (o conceito puro).

Richard Wagner

Obra de Arte Total

Wagner encarna a busca romântica da Arte como Religião. Sua Ópera/Drama Musical (a Gesamtkunstwerk) é a tentativa de criar uma nova mitologia e um novo rito religioso/social que substitua as instituições falidas. A fusão de música, poesia, drama e cena no teatro de Bayreuth visava um efeito de catarse e redenção coletiva.

  1. A Crise e o Legado

A ideia da Arte como Religião, apesar de sua força no Romantismo, carrega em si a semente de sua própria crítica (o Fim da Arte). Se o Absoluto deve ser apreendido no conceito puro (Hegel) ou se a própria arte se torna a sua única justificação (esteticismo), a função redentora da arte se esgota.

O legado do conceito, contudo, é duradouro: ele elevou o estatuto da criação artística e é o motor conceitual por trás da autonomia estética que fundamenta a maior parte da música e das artes visuais modernas e contemporâneas.

Contudo, este conceito nos ajuda a entender como a música, ao se desvencilhar de propósitos externos (divertimento, ritos, moral, etc), se investiu em uma missão quase sagrada.

Por Janilson Fialho

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