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A Comunidade dos Solitários: Narcisismo, Ciberespaço e Crise da Intersubjetividade em Slavoj Žižek

No livro Violência: Seis Reflexões Laterais, o filósofo Slavoj Žižek faz uma análise interessante sobre a chamada “Masturbatona”, um evento cujo propósito era celebrar o prazer da masturbação, que ocorreu em Londres em 2006. A reflexão de Žižek nos oferece uma chave privilegiada para compreender as contradições da sexualidade e dos vínculos sociais na contemporaneidade. Por mais que esse assunto pareça tão difícil de se abordar para algumas pessoas, por seu conteúdo ser um tanto constrangedor, por outro lado, ele, na obra do filósofo esloveno, ganha um tom filosófico brilhante, pois, acaba revelando um problema fundamental da sociedade: a solidão.

À primeira vista, esse evento parece carregar um paradoxo bem evidente: trata-se de uma celebração coletiva de um prazer essencialmente individual, solipsista e autorreferente. Centenas de pessoas reunidas em um mesmo espaço, não para se encontrarem enquanto sujeitos, mas para partilharem, cada uma isoladamente, o próprio gozo. No entanto, como o próprio Žižek sugere, essa contradição é menos um desvio e mais a expressão fiel da lógica social dominante.

O que está em jogo aqui sobre a Masturbatona não é apenas uma tentativa de normalização ou desestigmatização da masturbação, mas a materialização de um modelo de coletividade que se constrói a partir da exclusão da intersubjetividade. O pai da psicanálise, Sigmund Freud, já havia apontado a estranha afinidade entre o narcisismo e a imersão na massa: o indivíduo pode estar profundamente sozinho precisamente no interior de uma multidão. A ideia contemporânea de “partilhar uma experiência” não implica necessariamente um encontro com o Outro, mas, muitas vezes, apenas a simultaneidade de vivências isoladas. Assim, tanto o isolamento individual quanto a fusão na massa produzem o mesmo efeito: a suspensão da relação genuinamente intersubjetiva.

Essa lógica não se restringe apenas ao campo da sexualidade, mas encontra sua forma mais acabada no ciberespaço. Žižek desmonta o discurso ideológico que celebra a internet como uma nova ciberdemocracia horizontal, na qual os indivíduos supostamente se conectam livremente (através das redes sociais), fora do controle de instâncias centralizadas. A promessa de comunicação universal, contudo, esconde um movimento inverso: o sujeito digital se aproxima cada vez mais da figura da mônada leibniziana — um ente fechado em si mesmo, “sem janelas”, que espelha o mundo inteiro sem jamais tocá-lo diretamente. Diante da tela, o cibernauta encontra sobretudo a si próprio, seus desejos, suas projeções e seus simulacros, ainda que esteja formalmente inserido em uma rede global de comunicação.

(Slavoj Žižek)

Nesse contexto, o crescimento vertiginoso do consumo de pornografia não pode ser compreendido apenas como uma questão moral ou comportamental, mas como sintoma estrutural de uma sociedade marcada pelo individualismo radical. A pornografia oferece um gozo sem risco, sem alteridade e sem compromisso: um prazer que prescinde do encontro com o Outro enquanto sujeito desejante. Tal como na Masturbatona, trata-se de uma sexualidade perfeitamente ajustada a um mundo em que a coletividade não passa de um agregado de solidões paralelas.

Chegamos, portanto, à conclusão de que a reflexão de Žižek nos revela algo mais profundo do que um simples comentário provocativo sobre costumes contemporâneos. O evento da Masturbatona funciona como metáfora exemplar de uma cultura que transforma até mesmo o coletivo em um espaço de solidão compartilhada. Em vez de fortalecer vínculos afetivos e relações intersubjetivas, esse modelo de socialização reforça o fechamento narcísico do indivíduo, produzindo uma comunidade paradoxal: uma comunidade de sujeitos isolados, conectados apenas pela forma, mas desprovidos do conteúdo fundamental do laço social — o encontro efetivo com o Outro.

— Por Janilson Fialho

Referência:
ŽIŽEK, Slavoj. Violência: seis reflexões laterais. Tradução de Miguel Serras Pereira. São Paulo: Boitempo, 2014, p. 55-56; 59.

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