O fato de um autor como Nietzsche — crítico feroz do cristianismo e autor de O Anticristo — ser publicado por uma editora como a Logos, ligada à filosofia cristã e a círculos de influência olavista, não parece ser necessariamente um tipo paradoxo sem solução, mas talvez uma espécie de "sintoma". Tal coisa revela que, para além da oposição explícita entre o ateísmo e a fé, há zonas de convergência ideológica que permitem uma apropriação. Assim, uma espécie de “cola” que torna essa convivência possível não se encontra na teologia ou na metafísica, mas no terreno da política — mas em uma política que tem dentro do seu mais profundo ser o germe ideológico do fascismo.
O filósofo brasileiro Leandro Konder nos diz em sua obra, Introdução ao Fascismo, que a ideologia fascista historicamente se alimentou de tradições diversas, muitas vezes contraditórias em aparência. De Nietzsche, por exemplo, ela extraiu, seletivamente e com fortes corruptelas, a ética aristocrática, o culto da força, a rejeição da igualdade e o desprezo pelas massas; do cristianismo — de uma vertente reacionária —, ela herdou a estrutura moralizante, a ideia de verdade absoluta e a demonização do adversário. O que une esses polos é aquilo que, segundo o filósofo György Lukács, chamou de "decadência ideológica", isto é, um pensamento que, diante da crise histórica, abandona a crítica racional e se refugia em misticismos, idealismos, hierarquias naturais e “remédios heroicos”.
Nesse sentido, a aproximação entre a transcendência metafísica cristã e o aristocratismo do além-do-homem não ocorre apenas no plano dos valores últimos, mas na função em que ambos podem desempenhar politicamente. Seja pela vontade de potência, seja pela ética religiosa, constrói-se aqui uma legitimação da desigualdade, da exclusão e da violência simbólica ou real contra um “inimigo”. É nesse terreno comum — marcado pela demonização da esquerda e pela rejeição da modernidade emancipatória — que germina o fascismo como potência conciliatória entre duas perspectivas antagônicas. A publicação de Nietzsche por esse tipo de editora, portanto, não revela nenhuma fidelidade ao seu pensamento, mas uma espécie de instrumentalização dentro de uma tradição política, estética e ideológica reacionária que, historicamente, soube combinar misticismo, elitismo e autoritarismo.

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