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Os Limites do Poeta: Uma Crítica ao texto de Fernando Pessoa sobre o Comunismo

É inegável que o poeta Fernando Pessoa é um dos maiores escritores do século XX. A importância desse autor reside em sua genialidade modernista, ao revolucionar a literatura portuguesa com a criação dos heterônimos (Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro), isso lhe permitiu explorar múltiplas vozes e identidades, abordando temas como o "eu" fragmentado, a solidão e a identidade nacional. Além da poesia, Pessoa foi também tradutor e  crítico literário, ele escreveu peças de teatro, novelas e escreveu ensaios.

(Fernando Pessoa)

Sobre este último elemento de sua produção — os ensaios —, vamos aqui realizar uma crítica a um pequeno texto que ele escreveu sobre o comunismo, demonstraremos que o autor português está evidentemente equivocado sobre esse assunto, aliás, o primeiro erro que podemos antecipar aqui é que ele não especifica qual comunismo está tratando em sua crítica. Veja, o comunismo é uma ideia com várias faces — socialismo-utópico, comunismo marxista, marxismo-leninismo, trotskismo, maoismo, anarco-comunismo, comunismo de conselho, etc¹. —, cada uma com suas particularidades, suas convergências e divergências (entre si mesmas), assim, o autor já começa errando em generalizar uma ideia plural sob um nome que soa praticamente genérico. Ademais, mostraremos nessa breve discussão, sob a perspectiva do marxismo, que suas ideias sobre o comunismo não são condizentes com a natureza dessa corrente filosófica.

Sem mais delongas, o texto em questão que vamos criticar é esse:

Ao contrário do catolicismo, o comunismo não tem uma doutrina. Enganam‑se os que supõem que ele a tem. O catolicismo é um sistema dogmático perfeitamente definido e compreensível, quer teologicamente, quer sociologicamente. O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema — o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós. O comunismo não é uma doutrina porque é uma antidoutrina, ou uma contradoutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de civilização e de cultura —, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem. (Pessoa, 1968, p. 141).

As afirmações do ensaio de Fernando Pessoa erram em vários pontos: no diagnóstico, no método e no objeto. Além disso, esse texto revela muito mais sobre os limites ideológicos do autor do que sobre o comunismo em si. Primeiro erro central: dizer que o comunismo “não tem doutrina” é simplesmente e factualmente falso. O marxismo é uma das tradições teóricas mais sistemáticas já produzidas na modernidade: possui método (materialismo histórico-dialético), ontologia (a centralidade das relações materiais de produção), epistemologia (crítica da ideologia), teoria da história (luta de classes), economia política (crítica do valor, da mercadoria e da mais-valia), além de uma teoria do Estado, do direito, da alienação e da emancipação humana. O que Pessoa chama de "dogmatismo informe" é, na verdade, a recusa marxista de uma doutrina metafísica², moral³ ou teológica⁴, algo que ele confunde — por ignorância ou má-fé — com ausência de teoria. 

Marx não propõe uma doutrina normativa abstrata ou idealista, mas uma análise científica das condições históricas concretas — ou também como o filósofo Louis Althusser definiu: "A ciência fundada por Marx muda toda a situação no domínio teórico. É uma ciência nova: ciência da história." (2024). —, o que é exatamente o oposto de dogmatismo. Sobre isso o própria Marx nos disse o seguinte:

Essa concepção de história consiste, portanto, em desenvolver o processo real de produção a partir da produção material da vida imediata e em conceber a forma de intercâmbio conectada a esse modo de produção e por ele engendrada [...] Ela não tem necessidade, como na concepção idealista da história, de procurar uma categoria em cada período, mas sim de permanecer constantemente sobre o solo da história real; não de explicar a práxis partindo da ideia, mas de explicar as formações ideais a partir da práxis material. (Marx; Engels, 2007, p. 42)

O segundo erro é metodológico. Fernando Pessoa julga o comunismo a partir de categorias morais e espiritualistas, enquanto o marxismo justamente critica esse tipo de abordagem por ser puramente ideológica. Quando ele fala em “lixo moral e mental”, projeta no comunismo aquilo que o próprio marxismo denuncia como produto da sociedade burguesa: a alienação, a miséria espiritual e a reificação das relações humanas. Para Marx, não é o comunismo que dissolve valores, é a sociedade capitalista que os faz. Daniel Bensaïd cita, por exemplo, o famoso trecho do Manifesto do Partido Comunista para nos mostrar como o capital subverte tudo o que é sagrado ou estável: 

O Manifesto do Partido Comunista capta na fonte a extraordinária vitalidade do Capital enquanto 'potência social' impessoal cujo dinamismo subverte o mundo [...]. 'Tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar friamente sua posição social e suas relações mútuas'. (Bensaïd, 1998).

A sociedade capitalista, segundo o filósofo György Lukács, provoca uma "desumanização" profunda, na medida em que a racionalização da produção converte o trabalhador em uma mera peça na engrenagem mecânica da produção. Como o próprio Lukács destaca,

A essência da reificação consiste em que uma relação entre pessoas assume o caráter de uma coisa e, portanto, uma 'fantasmagoria' que oculta, com rigor, todo vestígio do caráter fundamental de toda relação social: a relação entre seres humanos. (LUKÁCS, 2003, p. 199).

Isso significa que as relações humanas são reduzidas a relações entre objetos, ocultando a exploração e a alienação subjacentes. Lukács vai além, afirmando que

Pois a inteligência do trabalhador, a sua alma, etc., tornam-se, ao se separarem da sua totalidade concreta de homem, meras mercadorias, tal como os seus músculos, os seus nervos ou os seus ossos. (LUKÁCS, 2003, p. 204).

Essa desumanização é caracterizada pela transformação do ser humano em objeto, um mero elo na cadeia de produção, perdendo sua essência ativa e tornando-se uma mercadoria a serviço do sistema.

Por conseguinte, o pensamento marxista observa que o capitalismo opera como uma potência social que reduz todas as dimensões da existência humana à forma-mercadoria, esvaziando a moral, a cultura e a subjetividade de qualquer sentido transcendente. Sob essa lógica, a moral deixa de ser um campo autônomo para tornar-se um instrumento de preservação do capital, pois, como apontam Marx e Engels, "a moral, a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia [...] são privadas, aqui, da aparência de autonomia que até então possuíam" (2007, p. 94). Essa perda de autonomia revela que os valores vigentes não são escolhas éticas independentes, mas sim construções funcionais ao sistema:

valores como a [...] competição, egoísmo, exploração, coisificação do outro [...] são valores que compõem a moral dominante capitalista e servem para a sustentação desse modo de produção. (Cunha; Dias, 2016, p. 36).

Assim, a subjetividade humana é capturada e moldada pela infraestrutura econômica, transformando o indivíduo em um mero suporte para a circulação de valor e para a manutenção da ordem burguesa⁵. Portanto, como o poeta acusa o comunismo daquilo que os próprios comunistas se opõem? 

A afirmação de Fernando Pessoa segundo a qual o comunismo seria um inimigo da liberdade repousa sobre uma concepção restrita e abstrata de liberdade, típica do liberalismo moderno, que a identifica com a esfera da interioridade individual ou com a posse de direitos formais, sobretudo o direito de propriedade. Essa concepção, porém, é justamente aquilo que a crítica do jovem Marx procura desmontar. Para Marx, liberdade não é sinônimo de livre-arbítrio isolado nem de escolha entre mercadorias disponíveis no mercado; ela está ligada à possibilidade concreta da pessoa reconhecer-se como ser humano, reconhecimento este que nasce de sua relação com a natureza e com as outras pessoas, mediada por necessidades que não são artificiais, mas efetivamente humanas.

É nesse sentido que Marx postula a "abolição positiva da propriedade privada", isto é, a consolidação do comunismo, não como supressão da liberdade, mas como sua condição histórica. Tal perspectiva permite o retorno do homem a si mesmo enquanto ser social, "realmente humano", configurando "um regresso completo e consciente e advindo dentro de toda a riqueza do desenvolvimento até agora" (MARX, 1994, p. 92). A propriedade privada, longe de garantir autonomia, introduz uma cisão entre o indivíduo e sua própria essência, pois submete sua vida a uma lógica externa, estranha, na qual o valor do indivíduo se mede pelo que ele possui; ao suprimi-la, torna-se possível que o indivíduo se reconheça como ser social e se "aproprie da própria existência". Por isso Marx afirma: "O que eu faço de mim, o faço para a sociedade e com a consciência de mim enquanto ser social". A liberdade, assim, não está ancorada em interesses individuais atomizados, mas na "consciência da universalidade", que é apenas “uma expressão 'teórica' daquela cuja forma 'viva' é a comunidade real" (MARX, 1978, p. 10).

Diferentemente da visão liberal — que parece orientar a crítica de Pessoa —, a sociedade não surge como um artifício destinado a conter conflitos entre indivíduos previamente dados; ela é dimensão constitutiva da própria existência humana. A exteriorização dos indivíduos sociais é, simultaneamente, "uma exteriorização e confirmação da vida social", de modo que a liberdade não se define pelo direito de propriedade, mas pela possibilidade de reconhecimento da própria sociabilidade. A "superação positiva da propriedade privada", entendida como "apropriação sensível pelo homem e para o homem da essência e da vida humana", desloca o eixo das escolhas do ter para o ser, esvaziando o fetichismo das posses. Esse processo histórico, lembra Marx, exigiu a redução do indivíduo à absoluta pobreza, para que pudesse "dar à luz a sua riqueza interior partindo de si" (MARX, 1994, p. 97).

A liberdade aparece, então, como conquista da autonomia real, como capacidade de criação da própria vida sem um fundamento fora de si, sem que essa criação dependa da apropriação de algo ou alguém estranho. É precisamente essa a perspectiva do socialismo, tal como Marx a formula ao afirmar que

Toda a chamada história do mundo não é senão a geração do homem, pelo trabalho humano, senão o devir da natureza para o homem, assim ele tem, portanto, a prova irrefutável, intuível, do seu nascimento através de si próprio, do seu processo de surgimento [...]. O socialismo é a autoconsciência positiva do homem, já não mediada pela supressão da religião, tal como a vida real é realidade positiva do homem já não mediada pela supressão da propriedade privada, o comunismo. O comunismo é a posição como negação da negação, por isso o momento real, necessário para o próximo desenvolvimento histórico, da emancipação e recuperação humanas. (MARX, 1994, p. 104).

Diante disso, a acusação de que o comunismo seria inimigo da liberdade revela-se presa a um "dever ser" imposto pela economia política, que reduz a liberdade aos limites formais do Estado e dos direitos individuais abstratos. Para Marx, ultrapassar esse dever ser exige superar as condições materiais que o sustentam, pois não é na conformação à norma estatal nem na defesa de direitos inalienáveis isolados que a liberdade se realiza, mas na superação de um modo de produção que subtrai dos indivíduos a possibilidade de escolhas verdadeiramente humanas, ao submetê-las à lógica do consumo. O comunismo, longe de suprimir a liberdade, busca libertá-la de sua forma mutilada, recolocando-a como expressão plena e concreta da sociabilidade humana.

Deste modo, diferente do que Pessoa afirma sem conhecimento, podemos dizer facilmente que o comunismo não é uma "antidoutrina", mas a superação histórica de uma ordem social específica. Isso é algo que o Fernando Pessoa sequer tenta compreender em seu texto superficial, pois permanece preso a uma visão essencialista e ahistórica do humano.

O terceiro erro é confundir crítica radical com barbárie. Quando Pessoa acusa o comunismo de inverter tudo o que a humanidade conquistou, ele ignora deliberadamente que essas "conquistas" — civilização, cultura, espiritualidade — sempre foram historicamente excludentes, fundadas na exploração de classe, no colonialismo e na miséria material da maioria. Aqui podemos trazer, por exemplo, o célebre pensamento do filósofo Walter Benjamin para reforçar a crítica as conquistas da civilização europeia (em especial a de sua própria pátria): "Nunca houve um monumento de cultura que não fosse também um monumento de barbárie." (Tese VII).  Será que Fernando Pessoa foi tão ignorante sobre essas tais conquistas europeias ou foi cruelmente cínico ao ponto de fechar os olhos aos problemas do projeto civilizatório que foram responsáveis por dizimar populações indígenas nas Américas? Porque foi sob esse nome que se deu o tráfico de escravos e o epistemicídio (o assassinato da cultura, dos saberes e dos valores dessas comunidades). Juntos, esses massacres representam a pior matança da história da humanidade. E foram elas que marcaram a chegada do capitalismo ao nosso continente.

Diferente do que mostrou-se nessa leitura superficial de Fernando Pessoa, a crítica marxista não visa a aniquilação da cultura, mas sim a sua desmitificação⁶. Ela opera de modo dialético, questionando a serviço de quem a produção simbólica se estabelece e quem, de fato, detém os meios para apropriar-se dela. Sob a égide do capital, a cultura sofre uma amputação ontológica: ao assumir o caráter de mercadoria, ela perde o pressuposto do ser humano como fim em si mesmo, subordinando a criatividade e o espírito às leis da acumulação.

Essa dinâmica é sustentada por uma estrutura de dominação que não é apenas econômica, mas profundamente ideológica. Como bem sintetiza o clássico postulado em A Ideologia Alemã: "As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes." (MARX; Engels, 2007, p. 72). Este axioma é fundamental para compreender a práxis social em sociedades fraturadas por classes antagônicas. A cultura "oficial" não é um produto espontâneo do gênio humano universal, mas um instrumento de poder. Louis Althusser reforça que essa hegemonia é fruto de um embate constante:

Bem, esse escândalo teórico não é absolutamente um escândalo. É um efeito da luta de classe ideológica, já que é a ideologia burguesa, a 'cultura' burguesa que se encontra no poder, a que exerce a 'hegemonia'. Como conjunto, os intelectuais [...] se encontram, salvo exceções, dominados em suas teorias pela ideologia burguesa. (ALTHUSSER, 2024).

Voltando a tratar da questão da imposição cultural praticada pela Europa, podemos dizer ainda o seguinte: a intervenção imperialista nos países periféricos tem como exigência que a dominação extrapole a economia. Para garantir o êxito da exploração, projeta-se uma política cultural que frequentemente se traveste de "sofisticação" ou "progresso". É o que Afonso Machado aponta ao tratar da necessidade de desmascarar a gênese dessa cultura ocidental imposta:

Destruir a cultura ocidental? Não, o objetivo é torná-la plenamente humana, libertadora, fazendo-se necessário denunciar que esta mesma cultura foi historicamente erguida pela escravidão, pela servidão, pela perseguição, pelas guerras, pela repressão, pela intolerância e pela miséria de muitos. (2015).

Apesar da pressão esmagadora do capital, que tenta padronizar a vida sob a forma de consumo, a cultura também emerge como trincheira. A classe trabalhadora não é um receptáculo passivo; ela desenvolve hábitos e tradições que funcionam como contraponto à lógica de desvalorização da vida. Segundo Borja (2020, p. 104):

O desenvolvimento capitalista vai destruindo e modificando a cultura e as condições de vida da classe trabalhadora, que, por sua vez, resiste na luta de classes, defendendo seu modo de vida particular. Esses [hábitos e tradições] se afirmam como fatores de resistência dos trabalhadores ao rebaixamento dos salários imposto pelos capitalistas e, assim, afirmam-se como fatores de extrema importância na dinâmica da luta de classes.

Deste modo, podemos ver que a crítica marxista revela que a cultura é, simultaneamente, o véu que encobre a exploração e o ferramental necessário para a emancipação. O que muitos teóricos marxistas buscam é libertar a cultura do rótulo de mercadoria e devolver ao ser humano a sua própria humanidade. E isto é muito diferente do que o poeta português defende, porque, no fundo, ele sustenta uma certa preservação de uma cultura elitista travestida de universal.

Por fim, a irrelevância da opinião de Pessoa não está no fato de ele ser poeta — mas justamente no fato de ele falar fora do seu campo, sem rigor conceitual, sem conhecimento da tradição marxista e sem compromisso analítico. Sua crítica não dialoga com Marx, Engels ou qualquer desenvolvimento sério do pensamento comunista; ela dialoga apenas com um espantalho ideológico típico do anticomunismo liberal-conservador do início do século XX. Nesse sentido, sua opinião não refuta o comunismo: ela apenas expressa o desconforto de um intelectual burguês diante de uma teoria que desloca o centro da história do "espírito" para as relações materiais de poder e produção.

Se me permitem um gracejo a respeito desse autor para finalizar essa crítica: para alguém que romantiza a solidão como virtude estética e existencial, qualquer ideia comunitária só pode mesmo parecer pavorosa. Afinal, como esperar simpatia por um projeto fundado na vida comum, na práxis coletiva e nas relações sociais concretas de quem passou a vida cultivando amizades imaginárias sob a forma de heterônimos? Não é surpresa que uma proposta que envolve pessoas reais, conflitos reais e a construção material da coletividade soe ameaçadora a um espírito que preferiu multiplicar vozes interiores a confrontar a experiência efetiva do social.

— Por Janilson Fialho

1 - Não incluo nessas definições os partidos de esquerda liberal, os sociais-democratas ou qualquer movimento acadêmico pós-moderno que faz uma leitura marxiana, pois entendo que eles não têm uma prática revolucionária voltada para o comunismo, limitando-se a questões teóricas e reformas sociais do sistema capitalista.

2 - A recusa marxista de uma doutrina metafísica é a rejeição da ideia de que existem verdades absolutas e imutáveis sobre a realidade, considerando-a uma forma de idealismo que ignora as condições materiais e históricas que moldam a sociedade.

3 - Embora Marx critique a moral como uma "ideologia burguesa", cuja existência no capitalismo é manter o poder, sua própria obra é movida por uma profunda ética humanista que condena a desumanização capitalista e busca a libertação e o pleno desenvolvimento do indivíduo. Assim, vemos que Marx não recusa a moralidade, e nem prega a ideia de um mundo sem leis, ele apenas recusa a moralidade tradicional e critica a ideia de valores morais universais e absolutos que estão postos atualmente na realidade, considerando-os uma forma de ideologia que mascara os interesses de classe e legitima a opressão. Sobre recomendamos a leitura do seguinte artigo: MENDES, António José de Oliveira Cruz. Marx, Moralidade e Justiça. 2015. 117 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia Política) - Instituto de Letras e Ciências Humanas, Universidade do Minho, Braga, 2015.

4 - É verdade que o comunismo marxista se acenta em uma base teórica materialista em sua filosofia, o que o torna fundamentalmente "anti-teológico". Entretanto, os marxistas como indivíduos podem ter sim sua própria espiritualidade religiosa. Aliás, até existe uma corrente cristã da igreja católica, a teologia da libertação, que flerta com algumas ideias de Marx. Para sermos bem sintético, o que os Marxistas são, em média, é anticlericais, mas no sentido de que a religião não se envolva na esfera política ou econômica. 

5 - Para se compreender melhor a perspectiva de Karl Marx onde ele está preocupado com o bem-estar humano, o desenvolvimento e a crítica à "desumanização" provocada pelo trabalho — especialmente do ponto de vista filosófico e ético —, recomendamos a leitura dos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844.

6 - Para Marx, o ato de desmistificar a cultura é revelar que o "espírito" de uma época é, no fundo, o reflexo das suas relações de produção. A cultura só deixa de ser um instrumento de dominação ideológica quando as bases econômicas da sociedade se transformam, permitindo a superação da alienação.

Referências:

ALTHUSSER, Louis. A filosofia como uma arma revolucionária. Editorial Adandé, 16 ago. 2024. Disponível em: https://editorialadande.com/filosofia-althusser/. Acesso em: 29 jan. 2026.

BENSAÏD, Daniel. A Atualidade do Manifesto Comunista. [S. l.]: Marxists Internet Archive, 1998. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/bensaid/1998/mes/manifesto.htm. Acesso em: 29 jan. 2026.

BORJA, Bruno. O capital e a cultura: elementos de economia política da cultura em Marx. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política, n. 56, p. 83-111, maio/ago. 2020.

CUNHA, Leonam Lucas Nogueira; DIAS, Maria Cristina Longo Cardoso. O significado das questões ético-morais para Marx. Saberes, Natal-RN, v. 1, n. 13, p. 35-48, mar. 2016.

LUKÁCS, György. História e Consciência de Classe: estudos sobre a dialética marxista. Tradução de Rodnei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MACHADO, Afonso. Abaixo o Rótulo de Maxismo Cultural! Um brinde aos Militantes Revolucionários da Cultura. Esquerda Diário, Campinas, 23 de março de 2015. Disponível em: https://www.esquerdadiario.com.br/spip.php?page=gacetilla-articulo&id_article=8312. Acesso em: 29 jan. 2026.

MARK, Karl. Para a crítica da economia política. (Coleção Os Pensadores). São Paulo: Abril, 1978.

_____________. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Lisboa: Edições Avante, 1994.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). São Paulo: Boitempo, 2007.

PESSOA, Fernando. Ao Contrário do Catolicismo, o Comunismo não tem uma Doutrina. In Textos Filosóficos. Vol. I. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho). Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). Pág. 141.

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