A cultura dos quadrinhos nasceu dentro da época da cultura de massas. Além disso, segundo o filósofo Walter Benjamin, esse tipo de arte, assim como a fotografia e o cinema, se originou dentro de um contexto histórico onde houve a perda da “autenticidade” (no sentido de aura/unicidade) por ser um produto criado em série através da reprodutibilidade técnica. A reprodução e a perda da unicidade da arte são fenômenos da modernidade, e isso acabou transformando a percepção do público radicalmente.
Sobre isso temos a crítica do escritor e quadrinista britânico Alan Moore contra a indústria dos quadrinhos, em especial contra as grandes editoras norte-americanas como a DC Comics e a Marvel Comics, e ela pode ser compreendida através da filosofia de Walter Benjamin, sobretudo a partir do seu célebre ensaio “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”. Veremos que a trajetória de Alan Moore nesse meio — passando de criador contratado a crítico radical do sistema editorial — expressa a tensão entre a arte autoral e a lógica da produção em massa, e é marcada pela alienação do artista em relação à sua própria obra.
Segundo a tradição filosófica marxista, a alienação do trabalho, e nesse caso o trabalho artístico, ocorre quando o criador perde o controle material e simbólico sobre aquilo que produz, tornando-se apenas um simples funcionário que alimenta uma engrenagem corporativa. No caso de Alan Moore e de sua obra Watchmen, temos um exemplo bastante interessante sobre esse problema. Veja, o autor — junto com o desenhista David Gibbons — publicou essa história pela editora DC Comics, mas ao fazer isso ele acabou perdendo os direitos autorais sobre sua própria criação e também não recebia um valor justo pelas vendas. Além disso, a única forma de Moore recuperar os direitos da própria obra é se ela sair do catálogo da empresa. Assim, vemos que há uma cláusula contratual que prevê a devolução dos direitos autorais, mas só após a obra sair de catálogo, entretanto, há um porém nisso, uma forma de burlar o contrato com o autor. É sabido que Watchmen é um sucesso contínuo de vendas, e isso garante a sua exploração perpétua pela DC.
Esse mecanismo revela, segundo Moore, como a reciclagem incessante de personagens e histórias reduz a arte a uma mera mercadoria. A cultura dos quadrinhos mainstream, por sua vez, apresenta uma falha estrutural: a falta de senso crítico em relação aos problemas sociais. Mesmo quando a crítica existe, ela só pode ser superficial ou facilmente cooptada. O objetivo é claro: transformar narrativas complexas em uma mercadoria sem sentido e reutilizável, para construir um leitor infantilizado e reduzido a um mero consumidor. Nesse contexto, a ruptura de Moore com as grandes editoras não é apenas um gesto pessoal do autor, mas um ato político que tenta resistir contra a indústria cultural que molda e limita a criação artística.
Como já dissemos, essa crítica encontra-se diretamente em Walter Benjamin, que analisou como a reprodução técnica dissolve a “aura” da obra de arte — seu caráter único, situado no “aqui e agora”. No contexto dos quadrinhos de super-heróis, a lógica da reprodução em massa privilegia o valor de exposição e de mercado em detrimento da singularidade artística. O que vale mais aqui é a reprodução e circulação do quadrinho como matéria industrializada feita para o consumo. Por conseguinte, Watchmen, ao ser explorada como franquia interminável por meio de prequelas e adaptações, exemplifica a transformação da obra em um ativo financeiro, desconectado de seu autor original.
Contudo, vemos que Alan Moore, ao tentar reaver seus direitos e produzir de forma independente, age como um tipo de “produtor” na definição de Benjamin, tentando quebrar a relação alienante onde o autor é apenas um operador da máquina de histórias em quadrinhos. Sua crítica à indústria cultural é um ato de resistência contra a transformação da arte em mercadoria, buscando preservar a integridade da criação artística. Assim, ao recusar a lógica das grandes editoras e buscar formas mais autônomas de publicação, ele tenta romper a relação alienante entre autor e indústria. Mesmo enfrentando derrotas econômicas, sua postura revela uma tentativa de transformar o sistema por dentro, reafirmando a possibilidade de resistência artística em meio à reprodutibilidade técnica e à mercantilização da cultura.
— Por Janilson Fialho


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