A leitura de Domenico Losurdo sobre Friedrich Nietzsche se insere em um esforço mais amplo de desmontar aquilo que ele considera uma interpretação ideologicamente conveniente: a identificação direta entre Nietzsche e o nazismo. Em sua obra — especialmente em Nietzsche, O Rebelde Aristocrata — Losurdo não nega os aspectos problemáticos da filosofia nietzschiana, como sua defesa de uma ordem aristocrática, sua crítica à igualdade e sua linguagem frequentemente elogiosa da “escravidão”. No entanto, ele desloca o eixo da análise para mostrar que o problema não é simplesmente olhar Nietzsche como o “pai espiritual” do Terceiro Reich, mas apresentar o lugar dessas ideias dentro de um contexto histórico mais amplo, que inclui todo o Ocidente liberal.

Losurdo observa que muitos intérpretes tratam Nietzsche como uma espécie de anomalia alemã, um pensador cuja radicalidade desembocaria inevitavelmente no nazismo. Essa leitura, segundo ele, ignora o fato de que Nietzsche está profundamente enraizado no clima intelectual do Segundo Reich, isto é, um período marcado pelo nacionalismo, expansionismo e teorias raciais que não eram exclusividade da Alemanha. Ao invés de ver Nietzsche como um precursor isolado do nazismo, Losurdo sugere que devemos entendê-lo como um sintoma — ainda que extremo — de tendências mais amplas que atravessavam a Europa e os Estados Unidos no século XIX.
É nesse ponto que a crítica de Losurdo se torna mais incisiva. Ele denuncia o que chama de “mito do Sonderweg alemão”, isto é, a ideia de que a Alemanha teria seguido um caminho histórico singular que culminou no nazismo, em contraste com um Ocidente supostamente mais "democrático" e "humanista". Essa narrativa, segundo ele, cumpre uma função ideológica de deslocar a responsabilidade histórica, transformando o nazismo em uma exceção monstruosa, ao invés de reconhecê-lo como uma radicalização de práticas e discursos já presentes em outras potências ocidentais.
Para sustentar essa tese, Losurdo amplia o horizonte comparativo. Ele lembra que teorias eugênicas, hierarquias raciais e discursos belicistas estavam amplamente disseminados fora da Alemanha. Francis Galton, frequentemente associado ao desenvolvimento da eugenia, era inglês e influenciou debates internacionais sobre “melhoramento racial”. Nos Estados Unidos, figuras como Henry Ford expressavam abertamente ideias racistas e antissemitas. Além disso, políticas concretas de segregação racial, como as leis de Jim Crow, e práticas coloniais violentas — como aquelas implementadas nas Filipinas sob domínio norte-americano — demonstram que o vocabulário de superioridade racial e dominação não era uma invenção alemã, mas um elemento estrutural do mundo atlântico moderno.
Nesse contexto, a leitura de Nietzsche como precursor exclusivo do nazismo aparece, para Losurdo, como um “atalho cômodo”. Ela permite que outras tradições políticas e intelectuais escapem de um exame crítico mais profundo. Ao concentrar a atenção na Alemanha, evita-se reconhecer que categorias como “civilização” versus “barbárie”, “raças superiores” e o direito de dominação colonial estavam presentes em discursos liberais e democráticos do Ocidente. Nietzsche, nesse sentido, não cria essas ideias do nada; pelo contrário, ele as radicaliza, explicita e, em alguns casos, as leva às últimas consequências filosóficas.
Isso não significa, contudo, absolver Nietzsche. Losurdo insiste em sua crítica que há, sim, elementos na filosofia nietzschiana que podem ser apropriados por ideologias autoritárias, como sua já citada crítica à igualdade, e também sua exaltação dos “fortes” e seu desprezo pelos “fracos”, que acabam oferecendo um vocabulário que pode ser mobilizado politicamente. No entanto, a questão central não é a existência desses elementos, mas o modo seletivo como eles são isolados e interpretados. A apropriação de Nietzsche pelo nazismo — mediada, inclusive, por figuras como sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche — envolve recortes, distorções e reinterpretações que não podem ser confundidas com a totalidade de sua obra.
A crítica de Losurdo, portanto, opera em dois níveis. Por um lado, ela é uma crítica interna à tradição interpretativa de Nietzsche, que tende a simplificar sua filosofia e a reduzir sua complexidade a um suposto “proto-nazismo”. Por outro, é uma crítica externa, dirigida à historiografia e à cultura política do Ocidente, que constrói narrativas convenientes para si mesma. Ao denunciar o mito do Sonderweg, Domenico Losurdo nos obriga a encarar uma questão desconfortável: até que ponto o nazismo representa uma ruptura, e até que ponto ele é a continuação — em forma extrema — de lógicas já presentes no colonialismo, no racismo científico e no imperialismo ocidental?
Essa problematização prepara o terreno para o que o próprio Losurdo desenvolve em seguida a análise da chamada “Nuremberg ideológica” e do argumento do tu quoque (“vocês também”), utilizado pelos nazistas para apontar as contradições das potências aliadas. Desse modo, mais do que uma defesa do nazismo, esse argumento revela a hipocrisia de uma ordem internacional que condena certos crimes enquanto silencia sobre outros estruturalmente semelhantes.
Assim, a leitura de Domenico Losurdo não busca inocentar Friedrich Nietzsche, mas reinscrevê-lo em uma história mais ampla — ou seja, uma história em que o problema não é apenas um filósofo ou uma nação, mas as próprias bases da modernidade ocidental.
— Janilson Fialho (03 de abr. de 2026)
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