A experiência estética contemporânea encontra-se sitiada por uma lógica de equivalências que busca reduzir a obra de arte a um mero reflexo do sujeito. Sob a égide do capitalismo avançado e da indústria cultural, a sociedade opera através do que Theodor Adorno denomina "lógica da identidade": um sistema onde predomina a fórmula lógica A = A. Tudo o que foge ao reconhecível é prontamente descartado ou neutralizado; em outras palavras, a diferença é vista como um erro que “merece” ser anulada, por ser algo que foge a regra.
Nesse cenário, a arte verdadeira não emerge como um conforto, mas como um ato de resistência fundamentado no conceito de negatividade. Assim, longe de ser um sinônimo de pessimismo, a negatividade adorniana é a potência da obra de negar o mundo tal como ele se apresenta, principalmente porque ele rompe com a lógica do reconhecimento e com a padronização que transforma a cultura em um produto de consumo previsível e inofensivo.
A negatividade na arte manifesta-se no estranhamento. Enquanto o mercado fonográfico e a audição superficial buscam a reconciliação fácil — aquela melodia que confirma o gosto do ouvinte e se encaixa em categorias pré-moldadas de seu entendimento —, a obra de arte autêntica impõe uma tensão estética e epistemológica ao que ele conhece. Ela se recusa a ser assimilada de imediato; ela pretende incomodar para distanciar de si a passividade e receber sua devida atenção. Esse incômodo causado é o sintoma da "lógica do A = B", onde o diferente não é excluído, mas preservado em sua própria singularidade.
Uma sinfonia de Beethoven, sob essa ótica, por exemplo, não deve ser ouvida apenas como um exemplar genérico do estilo clássico ou romântico. Não devemos reduzi-la a um "rótulo histórico", porque isso seria uma forma de cegueira estética que ignora o que há de único e irrepetível naquela construção. Nem devemos enquadrar esse compositor aos nossos pré-conceitos e nem numa leitura estatística. A verdadeira escuta busca o não-idêntico, ou seja, aquilo que escapa à definição e que faz de Beethoven uma voz singular, e não um representante burocrático de um período, de uma estética ou de uma perspectiva particular engessada que fala mais da experiência do ouvinte do que sobre o próprio Beethoven.
Essa busca pelo não-idêntico exige uma reconfiguração do papel do ouvinte. Historicamente, figuras como Arnold Schoenberg propuseram uma escuta técnica e estrutural, na qual o público deveria se elevar à "Ideia" musical captada pelo gênio do compositor. Embora rigorosa, essa perspectiva corre o risco de tornar o ouvinte passivo, isto é, torná-lo um "aluno obediente" que apenas decodifica uma estrutura musical dada.
Adorno, embora compartilhe da crítica à escuta superficial do compositor, propõe um caminho distinto. Para ele, o obstáculo não é a subjetividade do ouvinte, mas sim os seus preconceitos e clichês. O perigo reside na chamada "escuta atomística", onde o indivíduo busca na música apenas o familiar, transformando a arte em um espelho narcisista que reflete a si mesmo. Quando o ouvinte diz "isso é bonito porque soa como Beethoven", ele está, na verdade, confirmando a própria identidade do seu juízo de gosto, recusando-se a encarar o objeto artístico em sua alteridade.
Seguindo essa ideia: o que foge do seu gosto estético é anulado como objeto artístico com uma identidade válida; o reconhecimento desse objeto é anulado como arte, porque ele só reconhece esse outro como tal se nele houver sua própria experiência epistemológica a respeito do que seja música — se um sujeito com formação musical pautada na cultura europeia se depara com uma música indígena-brasileira, é muito provável que ele vá negar a existência dela enquanto uma arte legítima, simplesmente por fugir da sua zona de experiência epistémica a respeito do que é música. O problema reside no julgamento que mede a existência do outro a partir da própria singularidade. Assim, é muito comum que o contato entre culturas revele mais a ignorância daquele que se julga superior e tenta rapidamente anular o outro por ser simplesmente diferente.
Não é possível haver um julgamento estético justo naquilo que não se busca compreender primeiro, naquilo que não reconhecemos como diferente, ou seja, que não está dentro da nossa própria formação. Nisso devemos reconhecer que nossa formação técnica e teórica tem certos limites que não podem servir de métrica universal, isto é, que não podemos ser capazes de explicar o outro facilmente apenas com nosso reconhecimento limitado ao próprio Eu (por exemplo, ao que nós gostamos apenas). Devemos reconhecer que o outro em si tem suas próprias regras de funcionamento e suas próprias críticas, e o que devemos fazer é buscar compreender e entender elas.
Portanto, uma escuta adequada exige estar livre das "amarras" do reconhecimento imediato. É um processo que demanda uma subjetividade aberta, capaz de silenciar os hábitos da indústria cultural para permitir que a diferença da obra se manifeste. Ser um ouvinte ativo não é apenas entender a técnica musical de forma científica, mas ter a coragem de enfrentar o desconhecido e o imprevisível. Ao renunciar à segurança do rótulo e do gosto particular, o sujeito deixa de ser um consumidor de sons para se tornar um participante da experiência estética. A música que resiste à assimilação fácil é a que mantém viva a capacidade crítica do ser humano, lembrando-nos de que o mundo não precisa ser apenas o que ele já é, e que a beleza reside, precisamente, naquilo que não conseguimos classificar.
— Janilson Fialho (28 de fevereiro de 2026)
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